Turismo de Negócios ou Negócios de Turismo? - Abr/04

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Vocês sabiam que a cada 12 minutos acontece um evento de negócios na cidade de São Paulo? E que no ano passado foi inaugurado praticamente um hotel por dia naquela capital?

É a mais pura e agradável verdade! Graças a Deus e aos profissionais criativos do ramo de hotelaria, que tornaram moda estas reuniões de trabalho, realizadas bem longe do local de origem da empresa e, de preferência, distante também, o suficiente, das residências dos participantes, para alegria de todos.

Estes bravos trabalhadores são levados a fazer mais um “sacrifício”: Ficam hospedados em hotéis classificados como 4 ou 5 estrelas, com direito a todas as mordomias inerentes a estes estabelecimentos e, muitas vezes, são “obrigados”(sempre em benefício do serviço) a darem esticadas noturnas para banhos de piscina, mar, lua , etc..

Agora falando mais seriamente, são congressos de todas as espécies, conferências, seminários, palestras, feiras, ou qualquer outro tipo de reunião de pessoas, em torno de um ou vários assuntos. É o chamado Turismo de Negócios, o único setor que tem crescido com vontade no segmento turístico, pelo menos ultimamente, tanto no Brasil como em todo o mundo.

Como gosto de uma boa polêmica, vou lançar uma imediatamente: Não acho que este setor de negócios com eventos deva ter o nome de Turismo de Negócios. Gera alguma confusão para o setor de turismo propriamente dito e tem mascarado os seus números e estatísticas.

Creio que esta confusão tenha surgido pelo fato de que os eventos deste tipo ocorram , em sua maior parte, nos grandes hotéis das cidades e seus arredores. Então, como temos pessoas freqüentando hotéis eles têm que ser necessariamente chamados de turistas? Mesmo que estes homens e mulheres de negócios não gastem um só tostão do seu bolso e nem visitem um único sítio histórico?

Tenho me preocupado um pouco com isto, pensando que tem havido certa acomodação, dado que os setores desenvolvimentistas do turismo, como por exemplo, os governos estaduais e municipais têm injetado seus parcos recursos financeiros e humanos neste setor, em detrimento do turismo mais tradicional.

É inegável que é bem mais fácil ter bons resultados nesta área, onde os negócios envolvem parecerias com a iniciativa privada, o que, sem dúvida, ajuda bastante. Além do mais, o montante dos recursos envolvidos é bem significativo e capaz de interessar a muitos segmentos econômicos ao mesmo tempo.

Na verdade, o que se sabe é que este tipo de negócio vem salvando as taxas de ocupação dos nossos hotéis, impedindo que muitos tenham grandes prejuízos ou até venham a fechar suas portas em decorrência da falta que tem feito o turista de verdade.

Cidades pequenas, sem grandes atrativos, outrora dependentes apenas de turismo rural ou ecológico, têm agora, no ramo de eventos, grande oportunidade para obter lucros e crescer.

Caso típico é da cidade de Santinho, em Santa Catarina, a 35 Km de Florianópolis. Pequeno vilarejo com belas praias, até dois ou três anos atrás, estava quase condenado a fechar o comércio e diminuir seu setor de serviços nos meses de inverno ou baixa temporada, o que representava grande prejuízo, já que este tempo era a maior parte do ano. Implantou-se por lá, mais recentemente, a partir de uma agressiva campanha de marketing e grandes investimentos em infra-estrutura nas instalações do hotel principal, a cultura de que o local é apropriado para congressos, cursos e outros eventos, além de ter sido criado um SPA com todos os recursos possíveis e imagináveis.

São vários espaços, para variados públicos, podendo abrigar até 1200 pessoas em suas salas e auditórios! E com hospedagem para todos, no maior conforto. Resultado: Não há vagas! A agenda de eventos está lotada para o ano todo.E olha que é local já era uma belíssima reserva ecológica da Mata Atlântica , com dunas e rochas preservadas. Mas, adivinhem quando começou a dar lucro de verdade? Já sabem não é? A partir da chegada do turismo de negócios.

Devo estar confundindo a todos, pois hora parece que entendo o turismo de negócios para o bem, ora para o mal. Não é bem isso, o fato é que é preciso delimitar um pouco melhor estes campos de ação, de modo a que não se prejudique o turismo tradicional em detrimento dos negócios com eventos.

Comento isto porque a legislação favoreceu a este tipo de turismo, já na expedição do Decreto Federal nº 89 707, de 25 de maio de 1984, reconhecendo como de interesse turístico a prestação de serviços remunerados para a organização de congressos, convenções, seminários e eventos congêneres. Isto, na prática, redundou na Resolução do Conselho Nacional de Turismo nº 14/84, que, de certa forma, “protege” a realização destas atividades, inclusive com apoio técnico e financeiro da Embratur, e até algumas isenções fiscais, desde que a empresa prestadora dos serviços esteja devidamente registrada e preencha os requisitos exigidos pela lei.

Ou seja, não é sem razão que o turismo de negócios cresceu tanto nestes últimos anos. Contou com os incentivos dados pelo poder público para o meio turístico, com a força dos negócios de hotelaria e congêneres e, ainda, com a mudança global no padrão de trabalho do homem, que pretende aliar cada vez mais seu pouco tempo livre com o desempenho profissional e seus desdobramentos.

Mas cuidado! Tenho medo que as nossas longas férias remuneradas estejam condenadas! Assim que todos os empregadores verificarem que poderão investir bem menos, em um grande passeio coletivo, nestes maravilhosos “resorts”, durante o qual ainda poderão treinar seus funcionários para trabalhar mais e com melhor qualidade, a tendência poderá ser a extinção do modelo antigo, pois serão aproveitados estes momentos, nestas curtas viagens, para que seu descanso seja efetuado.

Portanto, antes de ficar alegre com a convocação para mais uma viagem de “trabalho” naquele maravilhoso paraíso ecológico ou em um famoso hotel fazenda, pense bem se vale a pena! Você pode estar apressando o fim do seu tão sonhado janeiro de férias!

Autora:
Mara Inez Ludwig Válio
Bacharel em Economia pela Universidade de Brasilia e cursando o MBA-Gestão e Marketing em Turismo, na Universidade Católica de Brasilia.

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