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As Possíveis Contribuições do Turismo Rural
no Combate ao Êxodo Rural - Ago/05

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Sendo um fenômeno não recente e resultante de intensas fases de transformação da estrutura econômica de um país, o êxodo rural apresenta-se como um processo desfavorável, para o campo e para a cidade, numa economia em expansão (CAMARGO, 1968). A intensa modernização agrícola tem contribuído na agravação desse mal. Com a industrialização do setor, novas tecnologias são criadas com o objetivo de minimizar o custo dos grandes empreendedores rurais com a mão-de-obra.

A força de trabalho da zona rural vem perdendo seu lugar para essa modernização, sendo substituída pelas máquinas, que por sua vez, proporcionam à esses empreendedores a diminuição de seu custo fixo, maximizando os lucros e aumentando a produção. Com a desvalorização de seu trabalho, a população rural migra para as cidades em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida. Este processo, denominado de êxodo rural, é entendido por Camargo como “uma forma particular do movimento migratório interno da população – dos campos para as cidades (...) (1968, p.13)”, isto, levando em consideração aspectos demográficos, econômicos e sociais de um país que encontra-se em franco processo de expansão.

Tomando para um sentido mais amplo, o êxodo rural é a saída de um grande número de pessoas das zonas rurais com destino aos grandes centros urbanos, por motivo de insatisfação econômica, social e até mesmo, com espaço em que se encontram. Conseqüente desse quadro surgem diversos aspectos negativos, tanto no campo quanto na cidade, tais como: aumento da delinqüência e da criminalidade, marginalidade social, proliferação das favelas, malocas e outros tipos de habitação, desprovidos de qualquer requisito mínimo de higiene e conforto (ibidem). Para as cidades, outro aspecto negativo é a urbanização. O aumento desordenado da população provoca, além dos males já citados, o alto índice de desemprego, pois, as industrias quase sempre são incapazes de absorver toda mão-de-obra que para lá se deslocam.

No entanto, já existem atividades que contribuem para a minimização do êxodo rural, oferecendo novas oportunidades de trabalho para a localidade, mantendo-os no campo. Uma dessas atividades e, talvez, a mais satisfatória, é a agregação do setor de prestação de serviços às atividades agropecuárias. Muitos empreendedores recorrem a essa alternativa com o objetivo de diversificar suas atividades, adquirindo uma nova fonte de renda, beneficiando também, a localidade, visto que, é necessário contar com a mão-de-obra local, já que a oferta de serviços não depende necessariamente da tecnologia das máquinas, mas sim, da qualificação pessoal (ZIMMERMANN, 1996).

Dentro deste setor, destaca-se o Turismo, que segundo a OMT (Organização Mundial de Turismo, 2003), é uma das atividades econômicas que mais cresce no mundo, tendo uma participação de cerca de 10% no PIB mundial. É um número bastante significativo diante das inúmeras atividades geradoras de receita.

A atividade turística é composta de diversas segmentações que levam em consideração vários aspectos como motivações da demanda, potencial de uma localidade, faixa etária, classes sociais, paisagem, espaço geográfico, etc. Entre essas segmentações, há uma que se destaca diante do problema estabelecido, pela sua natureza rural e por ter como atrativo o ambiente campestre e suas atividades tradicionais. Denominado de Turismo Rural, este, é a atividade turística realizada no meio rural, comprometida com a produção agrícola e com o desenvolvimento local, onde sua demanda é bastante específica (ZIMMERMANN, 1996). Muito se confunde com a terminologia Turismo no Espaço Rural, por isso, Campanola e Silva (p. 148, 2000) esclarecem que este é “relacionado a qualquer atividade de lazer e turismo que seja realizada em áreas rurais”, que podem ser desde a promoção de eventos como shows e congressos a outras atividades onde sua implantação dependa diretamente das áreas naturais, como ecoturismo, turismo de aventura, etc. O Turismo Rural, para vetor de desenvolvimento agrícola, deve ser, dentre estas, a atividade abordada no combate ao êxodo rural, visto sua relevância e necessidade de preocupação com a comunidade local, para um melhor manejo e andamento da prática.

O Turismo Rural é uma modalidade relativamente nova no Brasil quando comparada com outros modelos, como o turismo sol e praia e o ecoturismo (RODRIGUES, 2000). A atividade foi implantada no Brasil pioneiramente pelo Município de Lages, Santa Catarina, que começou como uma simples alternativa econômica e que hoje, segundo Zimmermann (1996), é exemplo de qualidade que se reflete na satisfação da população com a atividade, pois esta, proporcionou ao produtor rural o aumento significativo de sua renda. Os benefícios do Turismo Rural são ressaltados pelo EMBRATUR (Instituto Brasileiro de Turismo), quando o mesmo diz que a atividade agrega valores a serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade (EMBRATUR, 2004). Através da implantação do Turismo Rural, se da a junção de dois ramos diferentes, mas, com fins comuns, diversificando as atividades do campo, transformando-o em atrativo turístico que compõe, também, o cotidiano da localidade, seus costumes tradicionais, o ambiente natural, as instalações rústicas, entre outras que motivam o turista a procurar o meio rural. O Turismo Rural também contribui para proporcionar bem-estar às famílias envolvidas com a atividade, fazendo com que os mesmos passem a sentir orgulho de sua origem e se conscientizem da preservação de seu patrimônio, que é enaltecido pelo turista, que procura o campo para satisfazer suas necessidades de lazer, interagindo com a comunidade local e com as atividades que são comuns aos residentes. O jeito simples e acolhedor do homem do campo também chamam a atenção do turista, ou mesmo, o desejo de resgatar sua cultura e sua origem, além de afastá-lo, por um determinado tempo, do tumulto e da poluição da cidade grande.

Eslebão (2000) também aborda que o Turismo Rural tem como função utilizar a mão-de-obra e os recursos locais, além de ser uma atividade que cria estratégias de proteção ambiental do espaço rural, garantindo assim, a manutenção das famílias no campo, sem que as mesmas enfrentem a arriscada busca por trabalho nos grandes centros urbanos e, conseqüentemente, estimule a conservação das atividades agrícolas tradicionais.

O Turismo Rural também tem como vantagem a utilização da mão-de-obra já existente no local que vem da agricultura e da pecuária, daí a importância das capacitações, visando a qualificação desta mão-de-obra de acordo com as suas próprias necessidades e com o manejo da atividade. Com isso, o trabalhador rural poderá exercer outra atividade, sem que esta comprometa sua atividade principal, melhorando sua renda. Este processo chamado de pluriatividade, é definido por Shneider e Fialho (2000, p. 28), como tratando-se de “pessoas com domicílio rural que combinam o exercício de um ‘trabalho principal’, ou aquele considerado indispensável, com outras formas de ocupação ou obtenção de renda”.

Embora a pluriatividade seja um processo satisfatório onde, na maioria das vezes, as atividades não-agrícolas encontram-se, para as famílias, mais significativas que a atividade principal, isso não quer dizer que a agricultura deixará de ser importante. Ao contrário, segundo Shneider e Fialho (2000) isso pode estar indicando uma nova divisão espacial do trabalho, “que não mais se expressa na oposição conceitual tradicional entre rural e urbano (p. 26)”, muitas vezes sendo uma espécie de extensão antagônica entre campo e cidade. Sobre a relevância da geração de renda, Zimmermann (1996, p. 28) coloca que “para o produtor rural (...), a partir do turismo rural passa, além de agregar valores aos seus produtos (...), a obter uma representativa receita”, valores estes que, na maioria dos casos, passam a ser bem, mais representativos do que as receitas da produção rural normal.

O Turismo Rural também contribui para a reafirmação e resgate dos valores culturais, gerando um desenvolvimento sustentável, que segundo a OMT (2003), é um processo que visa atender as necessidades das gerações atuais sem comprometer que as gerações futuras também tenham a capacidade de garantir suas próprias necessidades. Portanto, com o Turismo Rural contribuindo para que a população local tenha uma melhor expectativa de vida, conseqüentemente o mesmo proporcionará a manutenção das famílias no campo, evitando o êxodo rural. São oportunidade de trabalho e de melhoria de vida que se apresentam como uma importante ferramenta para o crescimento social, espacial e econômico das localidades rurais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPANHOLA, Clayton; SILVA, José Graziano da. O agroturismo como nova forma de renda para o pequeno agricultor brasileiro. In: ALMEIDA, Joaquim Anécio; RIEDL, Mário (Orgrs.).Turismo Rural: Ecologia, Lazer e Desenvolvimento. São Paulo: EDUSC, 2000.
CAMARGO, J.F. de. A cidade e o campo: o êxodo rural no Brasil. Rio de Janeiro: Buriti, 1968.
EMBRATUR. Diretrizes para o desenvolvimento do turismo rural no Brasil. Brasília. Disponível em: http://www.embratur.gov.br/0-catalogo-documentos/arquivos-internos/Diretrizes -Turismo Rural.pdf , acesso em 06/06/2005, 9:56.
ESLEBÃO, Ivo. O turismo como atividade não agrícola em São Martinho-SC. In: ALMEIDA, Joaquim Anécio; RIEDL, Mário (Orgrs.).Turismo Rural: Ecologia, Lazer e Desenvolvimento. São Paulo: EDUSC, 2000.
OMT, Organização Mundial de Turismo. Guia de desenvolvimento sustentável. Trad.: Sandra Netz. Porto Alegre: Bookman, 2003.
RODRIGUES, Adyr Balastreri. Turismo rural no Brasil – ensaio de uma tipologia. In: ALMEIDA, Joaquim Anécio; RIEDL, Mário (Orgrs.).Turismo Rural: Ecologia, Lazer e Desenvolvimento. São Paulo: EDUSC, 2000.
SCHNEIDER, Sergio; FIALHO, Marco Antônio Verardi. Atividades não agrícolas e turismo rural no Rio Grande do Sul. In: ALMEIDA, Joaquim Anécio; RIEDL, Mário (Orgrs.).Turismo Rural: Ecologia, Lazer e Desenvolvimento. São Paulo: EDUSC, 2000.
ZIMMERMANN, Adonis. Turismo Rural: um modelo brasileiro. Florianópolis: Ed. do Autor, 1996.

Autor:
João Paulo da Silva

Aluno do Curso de Turismo da FAINTVISA

 

 

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