Território e Turismo: uma reflexão inicial - Abr/03

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Nos últimos anos, a temática do turismo vem atraindo pesquisadores das mais distintas formações, que encontram aí um campo novo e cada vez mais rico e complexo de estudos. Do ponto de vista da geografia, é possível relacionarmos o turismo com conceitos caros ao saber geográfico (como natureza, paisagem, lugar e território). Aqui, faremos brevemente uma primeira reflexão pessoal sobre a ligação território - turismo. Inicialmente, faremos uma breve apreciação sobre o conceito de território para, em seguida, discutirmos as territorialidades do turismo.

Quando se pensa em "território", emerge a questão do poder. Este é o aspecto mais evidente na literatura que encontramos sobre o assunto. Raffestin (1993), por exemplo, afirma: "o território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela abstração), o ator territorializa o espaço". O sentido do agir e da apropriação são expressos pelo autor mais claramente em seguida: "o território é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações de poder".

Este último ponto de vista é partilhado por Souza (1995): "o território é fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder". O que é assinalado por este autor é o caráter flexível do que possa ser o território. Para ele, "o território é um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais que, a par de sua complexidade interna, define, ao mesmo tempo, um limite, uma alteridade: a diferença entre 'nós' (o grupo, os membros da coletividade ou 'comunidade', os insiders) e os 'outros' (os de fora, os estranhos, os outsiders)". Em outras palavras, territórios são construídos e desconstruídos socialmente. Nos termos do autor, "...territórios podem ter um caráter permanente, mas também podem ter uma existência periódica, cíclica".

Bozzano (2000), por sua vez, afirma que "o território não é a natureza e nem a sociedade, não é a articulação entre ambos; mas é natureza, sociedade e articulação juntos. Neste cenário, cada processo adotará uma espacialidade particular". Mais adiante, o autor salientará a superposição de temporalidades e espacialidades num dado território: "em um mesmo território, em uma cidade ou em uma região, podemos ler e identificar tempos geológicos, meteorológicos, hidrológicos, biológicos, sociais, políticos, psicológicos, econômicos, cada um com seus ritmos, suas durações".

No contexto desta complexidade é que Horacio Bozzano vê o território como "...um objeto complexo, que existe na medida em que nós o construímos, combinando nosso concreto real com nosso concreto pensado" . Por isso, o real, o pensado e o possível emergem como instâncias metodológicas para se compreender o território.

Essa complexidade do conceito de território pode ser evidenciada tomando-se como exemplo a atividade do turismo, indutora de profundas alterações nos lugares em que se desenvolve, como vem sendo apontado pela pesquisa que estamos realizando.

Knafou (1999), importante pesquisador do tema fala, por exemplo, das territorialidades distintas que se confrontam nos lugares turísticos: "a territorialidade sedentária dos que aí vivem freqüentemente, e a territorialidade nômade dos que só passam, mas que não têm menos necessidade de se apropriar, mesmo fugidiamente, dos territórios que freqüentam".

Esse tipo de conflito entre territorialidades distintas é facilmente percebido nas praias brasileiras, especificamente naquelas onde ainda existem traços de comunidades pesqueiras e artesanais. O turista traz seus hábitos e costumes, muitas vezes chocantes para a população autóctone, não familiarizada com excessos de consumo e "liberdade". Há, muitas vezes, uma sensação de invasão do lugar, só compensada e/ou tolerada pelos benefícios financeiros oriundos da passagem do turista . Além disso, nos lugares turísticos se encontram duas territorialidades antagônicas: trabalho e turismo. Enquanto a praia é território de lazer e descanso para o turista, para aquele que trabalha é território de labor e cansaço, nada mais.

Referindo-se às peculiaridades do turismo em Mallorca, Llinás (1999) destaca as mudanças das áreas litorâneas: "todo o litoral passa a ser considerado zona apta para o crescimento turístico. Erguem-se hotéis, apartamentos e zonas residenciais em todas as zonas possíveis. O território é considerado um bem de consumo" (p. 195). Ao mesmo tempo, antigas territorialidades ligadas à indústria e à agricultura estão desaparecendo. Segundo o autor, a crise da agricultura é tão grave que "... já se fala na necessidade de transformar os agricultores em jardineiros do território, para manter assim a paisagem da ilha".

Nicolas (1999) chama a atenção para as distintas lógicas norteadoras do mundo do turismo e do mundo da produção, "que se deve à oposição irreconciliável entre a lógica do lucro que sustenta o segundo e a lógica do ócio que sustenta o primeiro". Por isso, diz o autor, "os territórios onde se exerce a lógica do ócio são em princípio diferentes dos territórios da produção e reprodução associadas, mas a lógica do ócio não pode descartar a presença do território".

Nos dias atuais há cada vez menos territórios sem turismo e, portanto, sem turistas. Aliás, parece ser este um fato curioso produzido por essa "indústria pós - moderna": para que exista o território turístico, é preciso um movimento anterior de desenraizamento provisório (mobilidade) do homem - turista de seu território original, uma espécie de desterritorialidade que promove uma nova territorialização em um outro lugar.

Bibliografia
BOZZANO, Horacio. Territorios reales, territorios pensados, territorios Posibles. Buenos Aires, Espacio Editorial, 2000, 263 p.
KNAFOU, Remy. Turismo e território: por uma abordagem científica do turismo. In: RODRIGUES, Adyr B. (org.). Turismo e geografia. São Paulo, Hucitec, 1999, p. 62 - 74.
LLINAS, Miguel Segui. El espacio turístico y su consumo en la Isla de Mallorca. In: RODRIGUES, Adyr B. (org.). Turismo e geografia. São Paulo, Hucitec, 1999, p. 191 - 205.
NICOLAS, Daniel H. Elementos para un analisis sociogeografico del turismo. In: RODRIGUES, Adyr B. (org.). Turismo e geografia. São Paulo, Hucitec, 1999, p. 39 - 54.
OURIQUES, Helton Ricardo. Turismo em Florianópolis: uma crítica à "indústria pós - moderna". Florianópolis, Ed. da UFSC, 1998, 150 p.
RAFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo, Ática, 1993, 269 p.
SOUZA, Marcelo José. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO, Iná Elias (et alli) (org.). Geografia:conceitos e temas. Rio de Janeiro, Bertrand, 1995, p. 77 - 116.

Autor:
Helton Ricardo Ouriques

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