A Transposição do Rio São Francisco e o Turismo. Quem perde? Quem ganha? - Dez/04

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O Rio São Francisco perdeu, no final do ano passado, o seu maior amigo: o Engenheiro Agrônomo Teodomiro Araújo. Era, um dos maiores conhecedores desse rio e do seu entorno. Autor de vários artigos e livros sobre esse manancial era, até então, um ardoroso lutador contra a transposição desse rio. Refutava, com justificativas científicas, todas as proposições com tal fim. Após o seu falecimento retomaram as discussões, quanto a transposição, que haviam arrefecido.

O rio São Francisco está assoreado e precisa de revitalização. A maioria dos estudiosos, deste rio, é contra a transposição. O primeiro projeto, para a transposição do mesmo, apareceu no Império. Volta e meia, essa discussão, sobre sua viabilidade ou não, retorna às manchetes dos jornais. Este ano já houve vários encontros, em cidades nordestinas, para discuti-la. Atualmente mudaram o nome de transposição para coligação de bacias; talvez como uma maneira de justificar a atitude perante a população que votou contra.

Quem irá pagar pelos danos ao meio ambiente e pela desertificação, se ocorrer, daqui há 30, 40 anos? O que fizeram com o litoral de Pernambuco, com a construção de um porto em local não recomendado pelos estudiosos, é o povo quem está sofrendo e pagando atualmente; não podem aproveitar as praias sem susto, sem medo. Quem pagará pelos danos aos “incautos”, como são referidos, agora, aqueles que adentram ao mar?

Não duvidem, hoje, culpam os banhistas e surfistas que entram no mar. Entretanto, os verdadeiros culpados foram aqueles que, passando por cima da opinião de pessoas abalizadas, decidiram pela construção do porto em local virgem, na costa pernambucana. É preciso pensar muito o custo e o benefício de atos dessa natureza, fazer estimativas. Não venham com a desculpa de dizer que fizeram a transposição do Rio “X”, na Europa e, do Rio “Y”, na América do Norte e deu certo. A assertiva não responde a pergunta se os mesmos estavam quase morrendo, precisando de revitalização.

Por que não se revitaliza o rio e enquanto isso não ocorre, constroem-se cisternas, cujos protótipos foram idealizados e postos em prática por um padre e que tem feito verdadeiro sucesso no interior do Piauí e Ceará ? Por quê ? Essas ações são pontuais? Vão dar pouco IBOPE ? Será que o Rio São Francisco vai ser no Governo do Presidente Lula, a Transamazônica, ou o “Trem ligando o nada a coisa nenhuma” de outros governos?

Por que a comunidade turística, até hoje, tem se mantido calada? Os estados da Região Nordeste têm grande parte de seus atrativos turísticos na costa, no litoral. Mas, há coisas lindas, inesperadas, no interior também. Os costumes, por exemplo, muitos deles preservados, ainda são desconhecidos ou pouco estudados. Pessoas singelas moram ali; vivem uma vida dura; é só olhar para as suas faces. Não é justo que venham a sofrer ainda mais.

Se a transposição for um erro, como se pressupõe, quem vai pagar por isso? Daqui há 30, 40 anos, quem desses, que estão na decisão, passando por cima de opiniões abalizadas, estará vivo para responder por esse crime? Porque, pelo que se sabe, quem está pagando pela construção do porto, na costa pernambucana, é o povo; ele é quem perdeu a tranqüilidade para aproveitar uma das mais simples e gratuitas formas de lazer, o banho de mar. O Estado, quando muito, dá uma perna mecânica aqui, outra ali e fica por isso mesmo. Mas, e aqueles que decidiram? Que sanção penal foi dada aos mesmos? Talvez já tenham morrido, ou se aposentado ou mudado de Estado ou de País.

O Nordeste está em alta no turismo. Até quando? Também não se sabe. Então, não se pode jogar todas as fichas na costa, no litoral nordestino. É preciso cuidar do interior. O Rio São Francisco, maior rio inteiramente nacional, atravessa cinco estados e presta relevantes serviços a Região. Tem sido a galinha dos ovos de ouro até hoje. Atentem porque querem matar a galinha!

Autora:
Iris de Souza Leão Barros
Bacharel em Turismo, graduação pela UNICAP/PE. Especialização em Turismo na FACTUR/BA e em Planejamento e Marketing Turístico no SENAC/BA e CEATEL/SENAC/SP

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