Turismo: fonte de sabedoria, prazer e trabalho - Mai/03

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Curtição, lazer, rock, farra, festa, excursão, alegria e viagens, muitas viagens e inúmeros roteiros. Quem imagina que o setor de turismo se caracteriza apenas pela oferta de boas sensações se engana e beira à ignorância. Turismo é prazer, mas também muito trabalho. Vai longe o tempo em que fazer turismo era sinônimo apenas de descontração e amenidades. Não importa se no Primeiro ou Terceiro Mundo, nos Países Capitalistas ou Socialistas, nas nações Cristãs ou Budistas, entre os Ocidentais ou Orientais. É um desperdício menosprezar uma tendência concreta: quem oferecer o melhor, estiver motivado, doar-se e unir esforços terá vantagem, atrairá mais turistas, dividendos, renda e alegria.

Mais do que uma atividade unicamente de prestação de serviço, o turismo é um negócio que responde por, pelo menos, 12% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, o que corresponde à cerca de US$ 4,5 trilhões, gerando 220 milhões de empregos. No Brasil cerca de 9% dos trabalhadores têm algum nível de relação com turismo. Não precisa ser gênio para perceber seu impacto social, político, cultural e econômico. Em especial num momento em que a área de serviços ganha espaço como nunca, enquanto indústrias e comércio demitem. Não são dados máximos, mas mínimos. É justo que o Brasil ou o Espírito Santo fiquem de fora dessa estatística?

O Brasil fica localizado na parte pobre do Planeta. É um fato que traz dificuldades óbvias. Nossos índices de pobreza, violência, péssima distribuição de renda e corrupção nos deixam aflitos, envergonhados e ansiosos. Mas quais serão as razões para darmos tanto valor a fatos destrutivos em detrimento dos aspectos construtivos? Será a incapacidade de apreciar nossa beleza, aquilo que temos de grandioso, peculiar, raro,
precioso e, mais importante, nosso?

De que adianta irmos para o caribe com a finalidade de sentir calor se não conhecemos o sol do Nordeste. Ir a África sem ter passado pela Amazônia. Conhecer a história da Europa se não é sabido qual foi à importância de nossos imperadores, dos índios. Desejar sentir o frio dos países nórdicos se nem sabemos onde fica a Serra Gaúcha. Gerar impostos nas compras em magazines americanos se nem conhecemos os shoppings de nossas metrópoles. Querer chegar ao Everest sem nem ter subido o Corcovado.

Descobrir a flora asiática sem nunca ter se aproximado da biodiversidade de Santa Teresa, logo ali. Ver italianos e alemães na Europa sem saber que há os daqui, nas montanhas do Espírito Santo. Arriscar ir a outras torres americanas, quando o máximo que ocorre aqui é a explosão de uma loja de fogos de artifício num mercado municipal, acidentalmente.

Comer em refinados restaurantes da moda se nunca provamos as delícias de nossos cafés coloniais. Valorizar a beleza de mulheres cariocas famosas, quando há as curvas e preponderância de tantas capixabas, e melhor, tão perto. Não se deve menosprezar o que não nos pertence. Mas precisamos valorizar o que temos, é real e está tão próximo.

Será que não falta uma identidade própria e sobra preconceito. Temos que buscar sabedoria. O melhor caminho: estudar, saber, pensar, pesquisar e refletir. Para tal, não há atalhos, mas um caminho longo, determinado e tortuoso. Mas, ao mesmo tempo com roteiro surpreendente, ininterrupto e gratificante. Quem não deseja aprender, menospreza a vida e suas possibilidades, fica de fora, se isola, desaparece e é infeliz.

Faculdades de Geografia, Biologia, Oceanografia, Comunicação e Turismo oferecem a possibilidade de um conhecimento, no mínimo, glorioso. Os solos, as montanhas, os animais, bosques, as plantas, florestas, nossos rios e mares, cultura e pessoas são bisbilhotados em minúcias. Que bom: em plena Era da Informação aprendemos amando o meio ambiente e nosso semelhante. A interdisciplinaridade está na moda. Saber o máximo também. Nunca é demais lembrar que nos próximos mil dias serão gerados mais informações do que nos últimos 10 mil anos. O filtro é natural para quem tem metas. Torna-se óbvio: os preguiçosos e estáticos estão fora, pois não acrescentam nada de novo, útil, diferente ou surpreendente. Nem aos outros e, pior, nem a si mesmos.

Tão burro e tão sábio. Como nunca nosso valor é medido por aquilo que sabemos, pelo interesse, comprometimento e facilidade de adaptação as mais diferentes e inusitadas situações e lugares. A vontade de aprender e o amor à profissão fazem a diferença. Os apáticos, incrédulos e acomodados não vão ter chances. Nunca houve tantas opções de faculdades, tanta gente formada, com posse de belos diplomas de pele de carneiro. Ao mesmo tempo, nunca houve tantos desempregados ou trabalhadores em subempregos.

Não importa se foi mau ou ruim, a Globalização chegou. Qual a saída: preparo, humildade e paciência para esperar a oportunidade que, mesmo em países estagnados como o nosso, surgem. Sabedoria para agradecer as conquistas e a vida. Calma para manter o equilíbrio, principalmente diante das dificuldades. Se falar é fácil, mais fácil ainda é se acomodar. Difícil é não desanimar.

Quem escolhe como profissão uma atividade que lhe proporciona prazer, dá tesão e estímulo em servir, é um ser feliz, bem-humorado. Bacharéis em Turismo fiquem ligados: não apenas devido ao valor que recebem pelo aluguel de seu trabalho ou reconhecimento pelo esforço. Mas pela alegria e satisfação que proporcionam ao ser necessário pelo sorriso e gratidão de alguém ansioso para, assim como você, descobrir novas sensações. O valor de um obrigado é inesgotável. Um sorriso inestimável. A gratidão uma conquista. Resultados, conseqüência de um processo contínuo de evolução e capacidade de crescer da melhor maneira: vivendo.

Autor:
Fabrício Araújo Faustini
Bacharel em turismo formado na primeira turma de Turismo do Espírito Santo, em 1994. É também jornalista especializado em Turismo e Meio Ambiente e especialista em hotelaria e administração estratégica pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Trabalha em Cadernos de Turismo, órgão Público e dá aulas.

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