Turismo como alternativa de desenvolvimento para o meio rural - Abr/04

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A modernização da agricultura

A modernização que aconteceu no Brasil por volta dos anos 60, adjetivada de conservadora, trouxe consigo mudanças profundas, sobretudo no meio rural. O grande êxodo rural e as péssimas condições de trabalho em que os pequenos produtores se encontraram foram as principais. A população rural do país representava 1/3 da população e não tinha a menor perspectiva de ser absorvida nas atividades urbanas.Todo apoio governamental a agricultura nesse período favorecia aos grandes produtores. Grande número de pequenos produtores que tentaram usufruir dessa política faliram, se encontrando em condições piores que anteriormente.

Segundo Silva (1) em seu texto “A modernização conservadora dos anos 70”, a grande mudança na agricultura brasileira é a passagem do complexo rural para os complexos agroindustriais que começou nos anos 60, após o processo de industrialização urbana. Com isso, a agricultura perde a sua auto-suficiência em produzir os seus meios de produção e passa a se dedicar a uma atividade específica, produzindo mercadorias, ou seja, compra a força de trabalho e insumos e vende produtos.

Porém, a modernização conservadora teve caráter excludente uma vez que só foi beneficiado quem estava perto dos grandes centros, como São Paulo, por exemplo. Outra característica do período era que a grande propriedade é mais vantajosa ao capitalismo devido à produção em grande escala. E tudo é mais fácil aos grandes proprietários em termos de acesso a tecnologia, compra e venda, negociação, o que os torna mais eficientes que os pequenos produtores. As políticas agrícolas nos anos 70 passaram a diferenciar o tipo de produtor em pequeno, médio e grande para estabelecer taxas distintas de financiamento. Porém é necessário diferenciá-los sob outro prisma: os capitalistas, as empresas familiares e os camponeses. Assim, podemos concluir que a modernização da agricultura favoreceu a classe mais rica do país.

Como ressalta Miller (2), as transformações ocorridas devido à modernização não trouxeram uma melhor qualidade de vida para grande parte da população rural. Gerou foi uma pobreza moderna marcada pelo subdesenvolvimento social. É o caso de milhões de pequenos produtores que não conseguiram se “modernizar” e foram excluídos do processo produtivo.

A migração para as cidades em busca de uma melhor condição de vida foi absurda (entre 1960 e 1980, 28,5 milhões de pessoas deixam o campo). E o pior: as cidades também não estavam preparadas para receber o grande contingente de pessoas e os resultados são sofridos até hoje pela sociedade brasileira. Favelas, miséria, o não acesso à educação, moradia e saúde são aspectos comuns hoje no país que enfrenta um problema com uma violência crescente, chegando a ponto de visualizar um poder paralelo no mundo do crime.

A desigualdade social no Brasil é uma das maiores do mundo e a maioria da nossa população não tem oportunidade de buscar melhores condições de vida. Falta emprego, falta apoio governamental, faltam soluções de alternativas cabíveis para o desenvolvimento do país.

Para Martin (3), depois de anos de desenvolvimento, políticas e planos, o espaço rural está em crise. E pensar um novo desenvolvimento rural é o grande desafio, pois obriga a uma releitura crítica das teorias, dos modelos dos comportamentos e da gestão das políticas.

A agricultura familiar e o Pronaf

Como vimos acima, o pequeno produtor ficou prejudicado no processo de modernização da agricultura. A Reforma agrária que seria uma solução ao problema da acumulação de terra no Brasil, gerada de acordo com o processo de desenvolvimento capitalista, não se efetivou. Entretanto, surgiu um programa do governo voltado para o agricultor familiar.

De acordo com Marques e Hermando (4), o Pronaf (Programa Nacional de Agricultura Familiar) deve ser entendido como um esforço de intervenção do governo na realidade rural brasileira, de desenvolvimento do fortalecimento da agricultura familiar. O propósito do programa é contribuir para erradicação das desigualdades individuais e regionais, eliminar a miséria e apoiar a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

O autor define que a agricultura familiar tem três características centrais que são: a gestão da unidade produtiva é feita por indivíduos que têm entre si laços familiares, o maior parte do trabalho é feito por membros da família e a produção pertence à família.

Uma linha de ação dentro do Pronaf é o Financiamento da Produção, onde o agricultor familiar tem acesso ao crédito rural. Para isso, o produtor deve ter o mínimo de 80% da sua renda na atividade agrícola, explore uma área igual ou inferior a quatro módulos fiscais, a mão-de-obra deve ser basicamente familiar e deve residir na propriedade rural ou na região.

O programa também buscou promover a participação dos participantes para construir sua base conceitual e operacional, dando oportunidade aos mesmos de exercer sua cidadania. Pois o desenvolvimento local deve fazer o grupo a buscar seu próprio caminho.

O Programa é a única política de empréstimo para agricultores familiares. Atualmente está em fase de reavaliação, pois está causando um processo de dependência do agricultor com o programa. Todos os anos o agricultor pede o empréstimo para fazer a plantação, ou seja, não está se tornando auto-suficiente.

O desenvolvimento rural local

De acordo com Cavaco (5), o desenvolvimento local precisa ter uma certa homogeneidade em relação aos grupos. Caso as expectativas, motivações e cultura dos envolvidos não estejam em sintonia, pode não conseguir o comprometimento necessário. Pois, qualquer processo de desenvolvimento é a longo prazo e de sucesso incerto. Isso pode causar frustração nos envolvidos, principalmente aqueles mais desfavorecidos em relação a emprego e renda.

Aborda também que o mundo rural não deve depender exclusivamente dos resultados econômicos da produção, mas também com a sua integração com a sociedade e economia urbana. Para isso as novas estratégias de desenvolvimento rurais se baseiam na definição de novas funções para o espaço rural, que deverão ser econômica e ambientalmente sustentáveis e de acordo com o interesse das populações rurais e urbanas.

Algumas das novas funções do meio rural são: equilíbrio territorial, devido ao despovoamento produzido pela concentração urbana; equilíbrio ecológico; produção de uma paisagem aberta e natural, ao contrário da urbana que é fechada e artificial; combate a contaminação do ar, água e solo.

O turismo no processo de desenvolvimento rural

O turismo, quando planejado, é uma atividade democrática, pois beneficia tanto o grande empresário quanto vendedor ambulante, traz benefícios econômicos a localidade, gera melhoria da qualidade de vida da população, resgata a cultura local, preserva os patrimônios locais, aumenta a oferta de empregos, incentiva a produção de outros setores. Para isso é necessário que o turismo aconteça partindo de um planejamento prévio, buscando o desenvolvimento sustentável e a participação da comunidade que será envolvida no processo.

Dentro dos segmentos do turismo está o Turismo Rural que segundo definição do livro Turismo não é só diversão do Sebrae (6) é:

 

“Tipo de turismo que aproxima o homem urbano do homem do campo. Caracteriza-se fundamentalmente pelo contato do homem junto ao meio rural, onde o turismo poderá conviver com a rotina das fazendas ou sítios, onde visualizará as lides campeiras. Explora as atividades do meio rural, sejam elas desenvolvidas em pequenas, médias ou grandes propriedades”.

Hoje, devido a época que vivemos, tanto o turismo rural quanto o ecoturismo têm sido uma tendência. Esses dois tipos de turismo estão em franca expansão, não só no Brasil quanto no mundo todo. Um dos fatores que explicam esse processo de fuga do turismo de massa (turismo praticado por grande número de pessoas em períodos de férias ou feriados, onde o turista não interage com o local. Como exemplo temos os resorts e parques temáticos), é, segundo Beni (7):

 

“O homem moderno deste final de século, mergulhado em uma cultura que não lhe pertence, que tem acesso aos meios de comunicação tecnicamente perfeitos, mas que não sabe comunicar-se consigo mesmo e com os outros, que no verão se refresca com ar-condicionado e no verão bronzeia-se com raios ultravioleta, possui uma mente que resiste a essa nova escravidão e anseia pela liberdade antiga e seu domínio da natureza. O que sente, na realidade, é um desejo de fuga das cadeias diárias.
E para onde ele quer ir? Para a mãe Terra...”“.

O turismo rural no Brasil é considerado pela Embratur como diversificação do produto turístico nacional. E dentre as diretrizes traçadas estão: equilibrar a conservação e o desenvolvimento dos recursos turísticos, criar uma oferta de alojamento e recreação não concentrada e de pequena escala; promover um turismo organizado e administrado pela população rural.

Para Etges (8), o turismo rural é a criação de uma nova alternativa econômica para o interior do país, aproveitando as propriedades e os recursos naturais existentes, além da cultura e dos costumes da população. Para o sucesso dessa alternativa é necessário o comprometimento da comunidade e o apoio do poder público. Também aborda que o que atrai o turista é a vida do agricultor. Uma opção é o visitante dormir na hospedaria e alimentar-se junto com a família, integrando-se com sua forma de viver e conhecendo sua alimentação típica.

Os benefícios que a comunidade teria com o turismo rural seriam basicamente: 
• Gerar uma alternativa de renda;
• Animar a economia rural;
• Gerar empregos diretos e indiretos;
• Contribuir para a redução do êxodo rural;
• Contribuir para a preservação dos valores culturais;
• Buscar o resgate da auto-estima do homem rural;
• Proporcionar novas atividades nas propriedades agropecuárias voltadas ao turismo receptivo. 

O Brasil precisa investir em novas formas de desenvolvimento, principalmente as de base local. Aquele conceito de que desenvolvimento está associado à busca de novas indústrias deve ficar no passado. Hoje o desenvolvimento deve estar aliado ao bem estar das populações locais e a sustentabilidade, como garantia da conservação dos recursos para as gerações futuras. Sendo assim, a prática do turismo rural sustentável estaria proporcionando as comunidades rurais uma nova alternativa de desenvolvimento.

Referências Bibliográficas:

1) SILVA, Graziano. A modernização conservadora dos anos 70. In: Tecnologia e Agricultura Familiar. Porto Alegre: Universidade, 1999.

2) MILLER, Geraldo. O agrário no complexo Agroindustrial. In: Anais do X Encontro Nacional de Geografia Agrária. Terezópolis: 1990.

3) MARTÍN, José Carpio. Desarollo local para um nuevo desarollo rural. In: Anales de Geografia de la Universidad Computense. 2000. p.85-100

4)MARQUES, Nivaldo Estrela e NORONHA, Hernando F. Agricultura Familiar: entender e transformar. Florianópolis: 1998.

5) CAVACO, Carminda. Turismo Rural e Desenvolvimento Local. In. RODRIGUES, Adir B. Org. Turismo e Geografia: refelxões teóricas e enfoques regionais. São Paulo: Hucitec, 1996.

6) SEBRAE. Turismo não é só diversão: é muito trabalho também. Curso turismo com Qualidade.

7) BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: editora Senac, 1998.

8) ETGES, Virgínia Elisabeta. Turismo rural: uma alternativa de desenvolvimento para as comunidades rurais. In: LIMA, Luiz Cruz. Da cidade ao campo: a diversidade do saber-fazer turístico. Fortaleza: UECE, 1998.

Autora:
Daniella de Deus Vieira
Instituto de Geociências - UFMG
Mestrado em Geografia – Área Análise ambiental
Disciplina: A agroindústria, produção familiar integrada e o desenvolvimento rural local.

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