A Sociedade Pós-industrial e o Profissional em Turismo Algumas Características - Jan/03

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As mudanças econômicas, políticas e culturais dos últimos anos foram intensas e abrangentes. O fim da Guerra Fria, o colapso do socialismo, a introdução e crescente inserção das novas tecnologias estão alterando radicalmente nossa concepção de mundo. A formação de megablocos econômicos, as consciências da importância da qualidade de vida e dos cuidados com o meio ambiente completam o quadro de profundas transformações que caracterizam essas últimas décadas do século XX.            

Neste livro Trigo analisa as novas exigências profissionais das sociedades pós-industriais. Precisamos compreender a gênese e a profundidade das mudanças para que possamos preparar novos profissionais, além de dar acesso à reciclagem ou à atualização dos que já estão no mercado de trabalho.

Uma nova civilização está emergindo em nossas vidas.[…] Essa nova civilização traz consigo novos estilos de família; novos modos de trabalhar, amar e viver; uma nova economia; novos conflitos políticos e, em última análise, também uma profunda alteração da consciência do homem. Fragmentos dessa nova civilização já existem hoje. Milhões de homens já estão ordenando sua vida pelos ritmos de amanhã. Outros, aterrorizados com o futuro, se desesperam e futilmente refugiam-se no passado, procurando restaurar aquele velho mundo que lhes dá segurança.

 

Trigo desenvolve estudos na área do Turismo, mais especificamente analisa o turismo sob o olhar dos aspectos sócio-econômicos e os reflexos oriundos da sociedade pós-industrial, é sempre um desafio para o pesquisador, tendo em vista a complexidade e a diversidade que o tema possui.                                             A definição do universo a ser analisado também requer cuidados, assim como, as possíveis variáveis tangíveis e intangíveis que irão determinar a densidade do trabalho.

Hoje, torna-se difícil elaborar um conceito com consenso do termo turismo, devido a inúmeras definições existentes.

Turismo é o conjunto de relações e fenômenos resultantes de uma viagem e permanência em uma determinada localidade de pessoas que lhe são estranhas desde que tal permanência não estabeleça nenhum vínculo permanente, e em geral, não esteja ligada a nenhuma atividade lucrativa. (Aiest – Associação Internacional de Especialistas na Ciência do Turismo).

 Baseado na análise econômica importa destacar o entendimento do termo turismo, sob a ótica moderna, como é praticado na atualidade. Turismo, no passado, era apresentado por muitos especialistas como as viagens para regiões distantes de mais de 50 milhas dos locais de residência dos turistas; ou, ainda, que exigissem a permanência dos viajantes por mais de 24 horas no lugar visitado; além do mais, importava que os turistas não viessem exercer, nesta localidade, uma ocupação remunerada.

Nos dias de hoje são conceitos ultrapassados. Outras definições ainda persistem com mais lógica. Por exemplo, segundo McIntosh e Grupta o turismo, de forma ampla, é assumido como a ciência, a arte e a atividade de atrair, transportar e alojar visitantes, a fim de satisfazer suas necessidades e seus desejos.   

Para Mathieson e Wall é o movimento temporário de pessoas para locais de destinos distintos de seus lugares de trabalho e de morada; incluindo também as atividades exercidas durante a permanência desses viajantes nos locais de destino e as facilidades para promover suas necessidades.                             

Atualmente, é impossível limitar uma definição específica de turismo. Sem dúvida é uma atividade sócio-econômica, pois gera a produção de bens e serviços para o homem visando a satisfação de diversas necessidades básicas e secundárias. Em se tratando de uma manifestação voluntária decorrente da mudança ou do deslocamento humano temporário, envolve a indispensabilidade de componentes fundamentais como o transporte, o alojamento, a alimentação e, dependendo da motivação, o entretenimento (lazer, atrações).

Com a modernidade e o desenvolvimento das comunicações, do avanço tecnológico, de novos costumes, valores culturais e hábitos emergentes, as viagens forma crescendo, sofisticando-se e se adequando às novidades globais da época, demandada pelos consumidores e oferecida pelos produtores.

A riqueza gerada pelas múltiplas atividades não tem mais limites, as fronteiras geográficas não mais existem, nem o tempo importa mais. O que se observa do turismo atual é a existência de uma rica e grandiosa indústria que se relaciona com todos os setores da economia mundial e que deverá continuar atendendo aos interesses da humanidade nos próximos milênios. O turismo moderno não precisa ter um conceito absoluto, mas importa no conhecimento do mercado dinâmico que integra.

Amálgama de elementos tangíveis e intangíveis, centralizados numa atividade específica e numa determinada destinação às facilidades e as formas de acesso, das quais o turista compra a combinação de atividades e arranjos.

Turismo, assim sendo, é hoje muito mais do que uma atividade econômica é sim, um fenômeno social, característico da sociedade pós-industrial, que está presente na vida de todos que participam dela, mesmo na diferença de classes, grupos, etnias, nações.

Haja vista que uma das características fundamentais da vida e uma das principais motivações humanas, que sempre têm acompanhado o homem na sua evolução histórica, é, a procura da diversidade e da variedade: diversidade de paisagens, de climas, de modos de vida, de culturas e de civilizações.

O turismo, por garantir as condições essenciais dessa procura, corresponde, então, a uma necessidade individual e social profunda, acentuada, modernamente, pelo crescente grau de urbanização da vida coletiva e pela monotonia do quotidiano. Sendo, por excelência, uma atividade orientada para satisfação das necessidades do homem na sua integridade física, mental e espiritual, os objetivos do turismo não podem ser estabelecidos sem a consideração do homem e sem a humanização das coisas.

Os constrangimentos, associados às dificuldades de deslocamento, impediram o homem, durante séculos, de dar curso à sua necessidade de diversificação, mas, recentemente, os avanços tecnológicos, as conquistas sociais e políticas e o crescimento econômico, acompanhado de uma melhor distribuição de renda, reduzindo ou eliminando aqueles constrangimentos e dificuldades garantiram-lhe novas condições de deslocamento impelindo-o à descoberta.

 

Simultaneamente, a harmonia, ligada à imobilidade e a lenta evolução que caracteriza as sociedades do passado, foram substituídas pela rápida e constante mudança que cria ao homem dificuldades crescentes de adaptação.

 

A procura de um equilíbrio novo e de uma nova harmonia deu lugar a novos fenômenos como é o caso do turismo que, inicialmente reservado às elites, se transformou rapidamente num fenômeno de massa, deixando de ser circunscrito aos países industrializados para passar a ser universal.

 

O turismo é considerado um dos setores da atividade econômica, que está mais exposto às alterações produzidas na sociedade e aquele que melhor as reflete. A própria dimensão e importância que alcançou é resultante das mudanças operadas na sociedade e da evolução do gênero de vida que elas produziram.

 

Além do suporte tecnológico e das mudanças econômicas, o que contribuiu para o aumento das viagens e do turismo foi a valorização que as pessoas começaram a fazer das atividades ligadas ao lazer, às artes, à culturas  aos contatos internacionais. Neste contexto, viajar tornou-se mais fácil, até mesmo um hábito, uma prática social ou profissional comum ou mesmo uma necessidade para vários segmentos sociais.

 

É por isso que o turismo atualmente nada tem a ver com o de há um século atrás e já pouco tem a ver com o de há vinte anos começando a operar-se modificações acentuadas em relação ao da década passada.


Cada período de mudança da sociedade arrasta conseqüências de transformações no turismo que obrigam a que todas as atividades a que lhe estão relacionadas tenham de acompanhar, com particular atenção, às tendências e mudanças que se forem operando, quer no domínio da oferta, quer no da procura.


As transformações econômicas, sociais  e políticas da atualidade levam a considerar que a chave dos problemas da nossa época já não residem tanto nas questões econômicas mas também na renovação dos valores sociais e culturais o que obriga a dar maior atenção e a realçar os fatores e elementos não materiais da vida: os valores humanos, o fortalecimento da cultura e da preservação do patrimônio natural.


O futuro da atividade turística tem que levar em consideração as transformações da sociedade nos aspectos econômicos, políticos e sociológicos que dão, cada vez, maior ênfase ao papel do homem na sociedade e ao enriquecimento do indivíduo que, por sua vez, determinam novas atitudes do homem em relação ao turismo e as férias.

 

As recentes transformações da sociedade determinam o seguinte cenário de atitudes perante o turismo: a diminuição da importância atribuída aos aspectos puramente econômicos das coisas, surgindo assim novos campos de interesse e novas atividades; o aumento da curiosidade pelos valores não materiais tais como: saúde, ambiente, natureza, saber, cultura; e a necessidade do indivíduo se personalizar, libertando-se das normas e dos constrangimentos sociais.

 

O fim da década de 90 confirma a tendência do crescimento exponencial das indústrias do entretenimento, do turismo e de tudo o que se relaciona com telecomunicações e informática. Dos segmentos mais importantes do planeta, 40% está envolvido com a produção de hardware e software e 60% com a mídia e o setor de entretenimento. Mas os que estão realmente globalizados são os setores de finanças, telecomunicações e turismo. Os gurus da economia, da administração e da informática não se cansam de produzir textos reinterpretando a conjuntura, que se atualiza a cada momento. O especialista Pepe Escobar bem denominou o setor de "infortainment", uma mescla de novas tecnologias direcionadas ao entretenimento.

 

A base da Nova Economia concentra-se na era da informação e do conhecimento, sendo que este último passou a adquirir uma crescente importância como mercadoria valiosa e produtora de riquezas.


Onde os negócios fundamentados nas emoções, constituem atualmente na grande tendência da indústria do entretenimento, do cinema, esportes, televisão, teatro e é claro, do turismo. O apelo às sensações cativantes e instigantes, sempre acompanhadas de um planejamento adequado e eficiente, tem revolucionado a relação de envolvimento entre clientes fiéis e empresas bem sucedidas.

 

[…] a “emotividade” tem garantido um lugar emergente na atualidade, onde a emoção fantasia, racionalidade e concretude são os ingredientes da criatividade.[…] devemos assumir como objeto de reflexão e de planejamento não só o tempo dedicado ao trabalho, mas também o tempo livre. A pedagogia da idade industrial ensinava a separar as duas coisas: trabalho era trabalho, diversão era diversão. Hoje, ao contrário, trabalho e lazer se misturam e se potencializam reciprocamente. De toda forma, o tempo livre, propício ao lazer, predomina. Junto com a biotecnologia, ele será o sinal distintivo do século XXI.

 

As perspectivas do setor serão determinadas pelas alterações, quer na sua estrutura, quer no sentido do desenvolvimento econômico, bem como pela evolução das principais forças de mudança que se manifestam em todo o mundo.


A compatibilização do desenvolvimento do turismo com a preservação do meio ambiente será um dos principais desafios da evolução da atividade, já que a valorização e generalização da consciência pelo respeito aos valores ambientais têm crescido gradativamente a ponto de agregar aos produtos turísticos, valores ambientais e ecológicos cada vez mais procurados pelos turistas, devido a esse comportamento.


As sociedades que absorverem com maior entendimento o cultivo da identidade cultural de seu entorno, assim como a manutenção desta diferenciação como atrativo ao turismo em detrimento à descaracterização oriunda das pressões econômicas no contexto da sociedade global, reforçarão a sua aptidão para competir no mercado turístico.

 

 Precisamos assumir uma visão holística de nosso mundo, nossas indústrias e nós mesmos através da integração do uso do solo, ecologia, arquitetura, comunidade, diversidade cultural, valores e bem estar em harmonia com sólida viabilidade econômica. Esses são os fundamentos do desenvolvimento sustentável, os princípios das delicadas interconexões da vida. Muitas sociedades pré-industriais escolheram viver de acordo com os ritmos e energias da Terra antes de aceitarem qualquer desafio desenvolvimentista.

 

Ao mesmo tempo em que atravessamos um período de maior integração econômica e política entre os vários países ligados por laços históricos e culturais ou de vizinhança, com alteração da sua capacidade de decisão interna, aumenta o desejo dos povos em participar mais ativamente nos processos de decisão que afetam suas vidas, é o chamado regresso ao tribalismo:

 

 O internacionalismo e o regionalismo desafiam, de fora, a soberania do Estado-Nação, mas o tribalismo mina-o por dentro e ameaça a substituição da nação pela tribo.

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O fenômeno da Mundialização ou Globalização econômica possui seus alicerces no pós-guerra, toma fôlego a partir do início dos anos 70 e, ao longo dos anos 80 e 90 até os dias atuais, engendra uma nova ordem no padrão de relacionamento econômico entre as nações, seus mercados, capitais e serviços financeiros. Internacionalizados pela quebra de barreiras regionais, os Estados, agora mundializados, passam a expressar a unidade econômica do planeta, onde a produção de bens e serviços, o comércio, as empresas, os mercados de bens de produção e de consumo e a força de trabalho são arrastados para a esfera das competitividades globais, atropelados pela compulsividade do capitalismo desestatizante.

 

À medida que o mundo se integra economicamente, as suas partes componentes estão se tornando mais numerosas, menores e mais importantes. De uma só vez, a economia global está crescendo, enquanto o tamanho das partes está encolhendo. É justamente na e pela economia terceirizada que as telecomunicações fornecem a infra-estrutura necessária para a realização da mundialização, em todos os seus níveis, especialmente no que tange aos serviços financeiros e de turismo; atividades estas expressas no contexto da globalização econômica.

 

A revolução contemporânea das comunicações, da qual a emergência do ciberespaço é a manifestação mais marcante, é apenas uma das dimensões de uma mutação antropológica de grande amplitude.[…] A freqüência crescente das nossas viagens, a eficiência e o custo decrescente dos nossos meios de transporte e de comunicação, as turbulências de nossas vidas familiares e profissionais, fazem-nos explorar progressivamente um terceiro estado, “móvel”, na sociedade urbana mundial. Esta nova condição “móvel”, multiplicando os contatos, contribui para o reencontro e a reconexão da humanidade consigo mesma.

 

Num tempo de mudanças contínuas e de grandes incertezas com relação às soluções futuras para os graves problemas decorrentes da globalização, o que se põe como permanente desafio para a sociedade civil é a capacidade de superar seus próprios limites e resgatar suas potencialidades, integrando-as e recriando uma nova forma de participar e interferir num contexto tão adverso e excludente.


As relações de força no domínio econômico e político alteraram-se nas últimas décadas, fazendo emergir novas áreas de expansão econômica que introduzirão fatores de mudança com reflexos profundos no turismo. As preocupações científicas, sociais e políticas com os valores humanos e com aspectos não materiais da vida levam a admitir que a humanidade seja capaz de uma renovação cultural. Se assim for, resta ao turismo transformar-se a contento neste início de século XXI.

Autor: Rodrigo Tonholo

Trabalho apresentado na matéria Teoria Geral do Turismo II ao professor Flávio, como requisito do curso de Turismo da Pontifícia Universidade Católica campus Poços de Caldas.

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