Circuitos Turísticos de Minas Gerais - Modelo de Regionalização - Ago/04

Voltar

Criação da Secretaria de Estado do Turismo
O Governo do Estado de Minas Gerais cria em 28 de outubro de 1999, através da Lei n° 13.341, a primeira Secretaria para tratar exclusivamente do Turismo no Estado.

“Art.19 – A SETUR tem por finalidade planejar, coordenar, fomentar e fiscalizar o turismo, objetivando a melhoria da qualidade de vida das comunidades, a geração de emprego e renda e a divulgação do potencial turístico do Estado”

A Turminas- Empresa Mineira de Turismo, foi vinculada à nova Secretaria e se tornou um braço operacional ágil da SETUR, pois como empresa pública tem autonomia para realizar as atividades sem estar subordinada aos entraves burocráticos de uma Secretaria de Estado. Nessa época, o Secretario de Estado, também respondia pela presidência da Turminas.

A criação da SETUR deu início a construção de uma política pública de turismo baseada na descentralização e regionalização, com a participação ativa da sociedade para definição das prioridades necessárias, para o desenvolvimento do turismo. Estabeleceu-se uma metodologia de indução ou estímulo para que as comunidades localizadas em determinados espaços geográficos se envolvessem de modo consciente e ativo na formação de Circuitos Turísticos. A integração das comunidades e a gestão integrada dos recursos para promover e desenvolver o turismo foram as bases para o desenvolvimento de um metodologia inovadora para a indução à formação de Circuitos Turísticos em Minas Gerais.

Processo de construção da Política Pública de Turismo descentralizada e participativa

Participação e Descentralização

A construção da política pública de turismo iniciou-se ouvindo e interagindo com as bases locais. Não se pode pensar em ações ou projetos turísticos, elaborados e executados por pessoas que não conhecem a fundo o local onde serão implementadas essas ações. Seria uma pretensão do Estado achar que uma empresa de consultoria estrangeira conseguiria captar as reais necessidades de cada região em se tratando do desenvolvimento turístico.

A satisfação do turista se dá através da interatividade com a comunidade local, com sua cultura, gastronomia, hospitalidade. Então como não envolvê-la no processo de gestão e desenvolvimento do turismo?

Na realidade a proposta de participação da comunidade vem como uma quebra de paradigmas aos modelos tradicionais de administração centralizada. O modelo centralizador já não é eficaz pois o poder público não é mais capaz de assumir, por si mesmo, responsabilidades que historicamente concentrava. Segundo Irving (2002) “a resistência ao processo participativo parece ter sua explicação na cultura institucional brasileira e na percepção política de “participação” como divisão de poder das esferas instituídas.”

A participação da comunidade local é o que garante a sustentabilidade do processo diante das descontinuidades políticas. Para Becker (1997) “a participação social no processo de tomada de decisões constitui pré-requisito à sustentabilidade e legitimidade de todo e qualquer projeto planejado e implementado sob a denominação conceitual de sustentável.”

Outro aspecto relevante da participação da comunidade no processo de desenvolvimento turístico se dá através da divisão de responsabilidades. Os atores locais passam a compreender o papel do estado, do setor privado e o seu próprio papel, assumindo assim suas respectivas responsabilidades. A co-responsabilidade só é possível mediante a um processo efetivo de participação na tomada de decisões políticas. Segundo Inving (2002) “ Nesse sentido, se abre a possibilidade de um engajamento efetivo dos diversos atores envolvidos e o desenvolvimento de uma postura pró-ativa na resolução de problemas sob a ótica da co-responsabilidade. Da mesma forma, o processo permite a avaliação realista do custo-benefício das intervenções propostas e , principalmente, a “apropriação” do projeto pelo próprio beneficiário, ponto fundamental para sustentabilidade desejada.”

Para Molina (2003), em sua reflexão sobre o “pós-tusimo”, a descentralização e a participação são ferramentas fundamentais para o desenvolvimento turístico deste milênio. “A descentralização das decisões contribui para um verdadeiro desenvolvimento do turismo, para a criação de estruturas de comunicação complexas, que impliquem as responsabilidades e os direitos de todos aqueles que se julgam ou são afetados pelo desenvolvimento turístico. A descentralização facilita um enfoque integral, mais apto para detectar, recolher, processar e concretizar idéias e conceitos que desemboquem em inovações estruturais, funcionais e de produtos turísticos.”

Parcerias

As parcerias foram desde o início uma preocupação constante da SETUR no processo de construção da política pública de turismo. Como se sabe, a atividade turística interage com diversos setores da economia. Além disso, causa impactos sociais, culturais e ambientais. Essa pluralidade é exatamente a responsável pela pouca compreensão do turismo, principalmente por parte do próprio poder público.

Na esfera federal somente agora , 2003 foi criado um Ministério só para o Turismo. Antes o turismo era considerado um apêndice em diversos setores : Indústria, Comércio e Turismo, Esporte e Turismo, Cultura, Lazer e Turismo. Nas esferas estaduais não é diferente, nas municipais muito menos. Para Beni ( 1998) “...quanto a subordinação administrativa, a disparidade de critérios demonstra que, do ponto de vista da administração pública, não existe uma idéia muito clara a respeito do lugar da atividade na organização administrativa do setor público”

A SETUR precisou “convencer” os próprios órgãos e Secretarias de Estado sobre a importância da atividade turística e como ela se inseria em suas respectivas áreas de atuação. Para o projeto de Turismo Rural, foram envolvidos a Secretaria de Estado da Agricultura e Emater, para os projetos culturais, a Secretaria de Estado da Cultura, para o projeto em Parques Estaduais e Nacionais, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Ibama, para o projeto de eventos esportivos, a Secretaria de Estado de Esportes, para o projeto de turismo nas escolas, a Secretaria de Estado de Educação. Outro parceiros como Departamento de Telecomunicações do Estado, Cemig, Copasa, BDMG e Indi foram envolvidos.

A SETUR conseguiu mudar a ótica da Secretaria de Transportes e Obras Públicas e do DER sobre a prioridade da construção de estradas, acessos e sinalização rodoviária. Na ótica desses órgãos só o escoamento de carga interessa para o investimento. Depois de várias reuniões, palestras, eventos os dirigentes e técnicos passaram a perceber a importância de pequenos acessos e trechos que poderiam impulsionar o turismo e o desenvolvimento da atividade em vários municípios. Um exemplo foi o asfaltamento para a cidade de Conceição do Mato Dentro e um outro, o trecho de Ouro Preto a Ouro Branco. A pesquisa de “origem” e “destino” realizada pelo DER só era aplicada aos caminhoneiros, após a parceria com a SETUR, passou também ser aplicada aos veículos de passeio. A SETUR conseguiu recursos via Ministério do Esporte e Turismo para sinalização turística rodoviária. Foi o primeiro Estado a implantar a sinalização turística seguindo o novo manual da Embratur.

Durante o processo também se envolveram o Senac, Sebrae, Banco do Brasil, Caixa, ONGs, Fundações e associações de classe.

Oficinas Participativas

Em fevereiro de 2001 a Secretaria de Turismo de Minas Gerais iniciou as Oficinas Participativas para construção da política pública de turismo. Ao final da gestão 1999/2002, foram realizadas 54 oficinas, atingindo mais de 400 municípios, contando com a participação direta de mais de três mil pessoas.

As oficinas participativas foram ferramentas de um processo de sensibilização e despertar do próprio poder público e das comunidades locais. Foi a partir delas o engajamento com responsabilidade de todas as lideranças locais, tanto no planejamento e priorização das ações, quanto na execução das propostas.

O eixo central das oficinas era a organização regional para o desenvolvimento turístico. As oficinas tinham a duração de dois dias. Eram iniciadas por uma palestra do então Secretario de Estado do Turismo Manoel Costa, grande idealizador de todo o processo. A presença e permanência do secretário em todas as oficinas foi fundamental para a credibilidade do projeto. Sua palestra focava a organização regional e a “cadeia produtiva do turismo”. Tendo por base as orientações da palestra, os municípios se dividiam em grupos de acordo com afinidades culturais, sociais, econômicas e limitações geográficas.

Essa metodologia foi adotada como tentativa de inverter a antiga concepção de administração centralizada, onde normalmente a comunidade recebe algum ensinamento de um corpo técnico “iluminado”, que desconhece a realidade local. Com tal enfoque o trabalho buscou discutir a atividade turística, explorando a experiência de cada município e contextualizando-o regionalmente. Os participantes destacavam a importância do turismo em seus municípios, os pontos fortes e fracos, os entraves e as oportunidades, a regionalização como opção para o desenvolvimento turístico, o papel de cada participante, as parcerias, as prioridades, e os próximos passos para implementação do processo. Finalizando foram realizadas plenárias onde todos os participantes se reuniam novamente para apresentação dos resultados de cada grupo.

Todos os parceiros citados anteriormente mandavam representantes que esclareciam as dúvidas dos participantes e assumiam suas respectivas responsabilidades diante das propostas e encaminhamentos definidos durante as oficinas.

È importante mencionar que durante as discussões a visão paternalista dos participantes de que o Estado era o grande responsável por todas as ações e soluções para o desenvolvimento turístico era predominante. Ao finalizar os trabalhos os grupos conseguiam enxergar nítida e claramente que 80% das ações e atividades a serem desenvolvidas dependiam inteiramente do poder público local, iniciativa privada e da própria comunidade.

Só para ilustrar como as oficinas participativas são eficazes no processo de sensibilização e envolvimento da comunidade, foram realizadas na região Sul de Minas Gerais 19 oficinas participativas. Os 147 municípios que integram a região Sul foram divididos em 6 eventos em cidades pólo ( Alfenas, Lavras, Pouso Alegre, São Lourenço, Poços de Caldas e São Sebastião do Paraíso) onde as oficinas foram realizadas. A SETUR preparou um grande evento no Centro de Convenções em Caxambu para entrega dos relatórios as autoridades. As inscrições para o evento eram realizadas durante as oficinas. O evento contou com a participação do Governador, Ministro do Esporte e Turismo, Presidente da Embratur e vários Secretários de Estado. Compareceram aproximadamente 2.000 pessoas, dentre elas empresários, comunidade, secretários municipais e 201 prefeitos. O sentimento de responsabilidade sobre as propostas e prioridades contidas nos relatórios foi o responsável pela mobilização de representantes dos diversos municípios do Sul de Minas.

Geralmente os grupos já saíam das oficinas sensíveis à questão de se organizarem regionalmente e pré agendavam reuniões para implementação dos encaminhamentos definidos nas oficinas. Nasciam a partir daí os Circuitos Turísticos.

Sobre o conceito de Circuitos Turísticos

Circuito Turístico é um conjunto de municípios de uma mesma região, com afinidades culturais, sócias e econômicas que se unem para organizar e desenvolver a atividade turística regional de forma sustentável, através da integração contínua dos municípios, consolidando uma atividade regional. (Definição contida no Decreto Lei 43.321, assinado pelo Governador Aécio Neves em 08 de junho de 2003 que institucionalizou os Circuitos Turísticos).

No Brasil, a organização dos municípios para a atividade turística tem ocorrido de forma espontânea e informal, sem planos, diretrizes ou estratégias definidas. Geralmente a organização dos “circuitos” que na verdade são roteiros, fica a cargo das agências de turismo que reúnem os diversos atrativos de municípios vizinhos, formatam um pacote e oferecem aos turistas. O circuito das Serras Gaúchas é um exemplo de como um arranjo atrativo e de sucesso formou-se de maneira espontânea ou não induzida.

A denominação dos “Circuitos” vem da tradução da palavra francesa “Tour”. Segundo Manoel Costa em artigo publicado através da Federação Nacional do Comércio (2002) “ Na realidade, o turista deveria ser chamado no Brasil de “circuitista ou circundista” e não turista. O tour é exatamente um circuito, porém não os implementamos de forma racional a fim de promover a integração de diversos atrativos em uma determinada região e prender o turista para uma estada maior.”

Segundo relatório das atividades realizadas pela Secretaria de Estado do Turismo (2002) : “ Os circuitos compreendem determinada área geográfica, caracterizada pela predominância de certos elementos da cultura, da história e da natureza, que são forte elemento de sedução para o viajante, além da identidade entre os municípios que se consorciam para complementar os atrativos e equipamentos turísticos com objetivo de ampliar o fluxo e a permanência dos turistas, com conseqüente geração de emprego e renda.”

Os circuitos turísticos são formas de organização social, onde o papel da iniciativa privada é fundamental, embora necessite da participação efetiva do poder público, nas três esferas, municipal, estadual e federal.

“A ação dos municípios, de forma geral, tem sido sempre isolada. Nós criamos uma nova consciência, que não é a do poder público municipal. Além disso, induzimos a criação de um conselho ou agência de desenvolvimento, em que participam todos os atores ligados à atividade turística. O setor organizado da iniciativa privada, em nível de hotelaria, restaurantes, transportadoras, artesãos de uma maneira geral. Este grupo de pessoas mais o poder público municipal cria um circuito, instala um conselho e contrata um gestor, um gerente, que não é funcionário público”. Manoel Costa (2002)

Gestão dos Circuitos Turísticos

A proposta dos Circuitos Turísticos foi lançada e construída de forma participativa. A sua implementação também se deu da mesma forma. Ficou a cargo dos municípios a decisão de participar ou não do processo. Os municípios interessados passaram então a se reunir para discutir a melhor forma de organização.

A Secretaria de Estado de Turismo dividiu seu corpo técnico para o acompanhamento direto das ações definidas pelos municípios. Cada Circuito tinha um “padrinho” ou “madrinha” da SETUR que sempre estavam presentes nas reuniões e eram responsáveis por levar as demandas locais a Secretaria.

Eram os Circuitos quem definiam a denominação turística de cada região de acordo com suas características predominantes, por exemplo : Circuito das Terras Altas da Mantiqueira, Circuito Serras Verdes do Sul de Minas, Circuito das Vilas e Fazendas, Circuito Nascente das Gerais, Circuito dos Lagos; Circuito Caminhos Gerais e outros.

As denominações de Circuito do Ouro e Circuito das Águas já existiam, mas não na forma de organização proposta pela metodologia da SETUR, os municípios até se reuniam, mas essas reuniões não passavam de um fórum de discussões sobre turismo. De certa forma serviu para o amadurecimento dos conceitos da atividade turística nessas regiões, que historicamente já recebem turistas, mas não foram realizadas ações concretas de trabalho em conjunto ou atividades compartilhadas entre esses municípios.

No decorrer do processo, os Circuitos sentiram a necessidade de uma forma de organização legitima e reconhecida. Alguns optaram por associações, outros por organizações não governamentais, agências de desenvolvimento regionais e até mesmo OSCIP- Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Os Circuitos não tem a conotação de organizações microrregionais de prefeitos. Participam os empresários, a comunidade, as instituições de classe, o terceiro setor, instituições de ensino e as prefeituras que constituem um conselho regional.

Segundo relatório da SETUR (2002): “O Circuito, é administrado por uma entidade sem fins lucrativos com autonomia administrativa e financeira, regida por um estatuto, membros da sociedade civil e do Poder Público, e com a participação mais ativa das empresas que compõem a Cadeia Produtiva do Turismo”

A partir disso surgiu a necessidade de um Gestor para o Circuito. Seria o responsável, o executivo das ações definidas nas reuniões e o ponto de ligação entre o Circuito e a Secretaria de Estado de Turismo. A SETUR subsidiou por um período de três meses a remuneração desse gestor contribuindo com os municípios para que os primeiros passos pudessem ser dados. Quem indicava e escolhia o gestor era o próprio Circuito. O gestor passou a ser fundamental. Deveria de ser hábil para lidar com as diferentes posições dos participantes do Circuito e ter uma visão macro da cadeia produtiva do turismo.

O gestor deve ser criativo e empreendedor, pois além de atender as solicitações do conselho regional deve criar oportunidades de negócios e arrecadação de recursos. Os recursos vem predominantemente das contribuições dos associados, da realização de eventos e de parcerias com instituições do Estado. Os recursos são importantes para manter a sede do Circuito, o trabalho do gestor, a promoção turística do circuito incluindo participação em feiras e eventos e confecção do material impresso promocional.

A SETUR apenas acompanhava o processo, não intervia nas decisões dos Circuitos, apenas orientava para que eles obtivessem melhores resultados. Como esse era um processo inovador, não existiam modelos e receitas que poderiam ser copiadas ou adaptadas. Os modelos de organização e gestão se construíram a partir das experiências de cada região. Não houve nenhuma influência da SETUR para uniformizar ou padronizar o tipo de organização e os métodos de gestão dos Circuitos. Verificou-se posteriormente que a forma jurídica com melhor desempenho foi a de organizações em forma de associações.

Foram promovidas pela SETUR até o final de gestão de 2002 três oficinas de gestores. A última contou com a participação de 37 gestores dos mais variados Circuitos do Estado. As oficinas tinham como objetivo o monitoramento do processo, a troca de experiência entre os gestores e estabelecer os eixos prioritários para as ações da própria SETUR. Como se vê , o processo permitiu a inversão de papeis, onde os Circuitos organizados definiam o que queriam do Estado e não simplesmente “obedeciam”.

Sobre a classificação e organização territorial dos Circuitos Turísticos

A decisão de regionalizar e descentralizar a atividade turística em Minas Gerais ocorreu devido a grande extensão territorial do Estado que é de 588.383,6 km² e por abrigar o número significativo de 853 municípios. Minas Gerais é maior em área geográfica do que a França (550.00 km²) e também Itália (301.300 km²). Além disso, a maioria dos municípios mineiros são de pequeno porte, possuem uma população de aproximadamente 20.000 habitantes. Esse foi o modelo que permitia a integração dos diversos atrativos, equipamentos e serviços de uma região e conseqüentemente o aumento da taxa de permanência e a renda gerada pela atividade. A reorganização do espaço geográfico possibilitou construir uma política pública democrática, sem a exclusão dos municípios menores que não possuem infra-estrutura turística mas oferecem atrativos únicos que podem ser explorados de forma ordenada e organizada pelos membros do Circuito.

Os municípios pertencentes aos Circuitos foram classificados de Centros Turísticos e de Unidades Turísticas. Os centros turísticos são os municípios pólo, onde a cadeia produtiva do turismo é mais completa, que possuem o maior número de equipamentos turísticos, como hotéis, restaurantes, lanchonetes, serviços, comércio, aeroportos, rodoviária, postos de informação turística, acesso fácil e que exercem influência dos municípios do entorno. Para Boullón ( 1997) “Pode ser que o conglomerado urbano onde se assenta um centro turístico viva exclusivamente dessa atividade, com ocorre nas aldeias de montanhas que funcionam com base nos esportes de inverno; ou que em tal conglomerado urbano o turismo seja uma atividade a mais. Neste último só uma parte do conglomerado urbano é turística, como ocorre nas grandes capitais do mundo.”

As unidades turísticas são os municípios menores, que possuem atrativos naturais e culturais, que podem ser explorados mas não oferecem a infra estrutura necessária para abrigar e atender os visitantes. Na maioria das vezes oferecem no máximo um ou dois atrativos distintos, o que não estimula a permanência prolongada dos turistas.

A inter-relação entre os centros turísticos e as unidades turísticas é responsável pela dinâmica dos Circuitos. É o que podemos chamar de complementaridade. Os centros turísticos suprem a necessidade de infra-estrutura turística e básica das unidades turísticas. Portanto, um turista chega facilmente ao centro turístico, hospeda-se, visita os atrativos pertencentes a ele e visita também seu entorno. As unidades turísticas são responsáveis por suprir o centro de atrativos diversos, o que cria condições para permanência maior dos turistas na região.

Além disso, é papel também das unidades turísticas fornecer aos centros serviços e produtos que são consumidos pelos turistas, como frutas para o café da manhã, hortaliças, artesanato, laticínios, mobiliário, e o que for destaque na produção econômica de cada município. Isso é o que garante a sustentabilidade econômica do Circuito, reduzindo em parte as importações de outras regiões do Estado e até mesmo do país. É errado supor que só os centros turísticos recebem os benefícios econômicos do turismo. Os recursos gerados pela atividade circulam da mesma maneira, regionalmente.

A SETUR orientava que a distância entre os centros turísticos e as unidades turísticas não ultrapassassem 100 km, pois essa distância permite que o turista visite os atrativos do entorno e retorne no mesmo dia ao centro turístico.

Características dos Circuitos Turísticos

Os Circuitos Turísticos podem ser caracterizados da seguinte forma:

• Aspectos geográficos: Região geográfica limitada com características culturais, físicas e sócias que criam uma sensação de identidade regional;
• Aspectos multitemáticos : Os circuitos oferecem uma diversidade enorme de atrativos pois os municípios tem características distintas. ( rural, ecológico, saúde, eventos, religioso, negócios, cultura, gastronomia e etc)
• Aspectos da oferta diversificada de infra estrutura e serviços : Possuem infra estrutura turística variada e com diversas opções de preços. Os centros turísticos possuem equipamentos e serviços mais sofisticados, enquanto as unidades turísticas são mais rudimentares nesse quesito. (hotéis, pousadas, albergues, restaurantes, postos de informação turística, sinalização turística, etc)
• Aspectos da demanda diversificada : Possuem demanda variada e atendem todas as classes sociais de acordo com as características locais. A maioria dos turistas são domésticos e a localização estratégica do Estado cria condições favoráveis para visitação de pessoas de diversas partes do país.
Funções e Atividades dos Circuitos Turísticos

• Promover a integração e participação social das comunidades locais, gerando troca de experiências e conhecimentos para elaboração do planejamento turístico regional;
• Diminuir as distâncias entres os municípios e o Estado;
• Mobilizar a sociedade no sentido de engajamento, em educação, hospitalidade e na compreensão da atividade turística;
• Induzir a conscientização para preservação dos patrimônios históricos, culturais e ambientais;
• Promover a integração econômica através das ações compartilhadas da iniciativa privada regional;
• Auxiliar a iniciativa privada na elaboração de novos roteiros potencializando o receptivo local;
• Promover a integração entre governos e empresários;
• Assegurar reserva de mercado para mão de obra local;
• Elaborar plano de marketing e promoção da região;
• Interagir com instituições diversas de ensino, capacitação profissional, terceiro setor, possibilitando parcerias lucrativas nos diversos setores do turismo;
• Auxiliar na proposição de novas oportunidades de negócios para os investidores;
• Reunir e disponibilizar dados e informações sobre a região;
• Dinamizar a comunicação entre os diversos setores envolvidos na cadeia produtiva do turismo regional;
• Canalizar demandas por melhorias na infra-estrutura turística regional;

Resultados do processo de organização dos Circuitos Turísticos

• Potencialização da oferta dos atrativos, equipamentos turísticos e serviços da região;
• Aumento da competitividade em relação a outros destinos;
• Aumento da taxa de permanência dos turistas e conseqüentemente da renda gerada pela atividade;
• Geração de novos postos de trabalho e empregos;
• Fortalecimento político da região;
• Preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental;
• Melhoria na qualidade de vida da população local;
• Diminuição dos custos da promoção turística criando condições para o desenvolvimento de novos produtos e serviços;
• Participação ativa e direta das comunidades locais nas decisões sobre os rumos do desenvolvimento turístico na região;

Considerações Finais

Durante a gestão da Secretaria de Estado do Turismo 1999/2003 foram induzidos a organização de 43 Circuitos Turísticos, envolvendo mais de 400 municípios diretamente. A metodologia adotada de construção participativa do processo foi uma das grandes responsáveis por garantir a continuidade política por parte do Estado na nova gestão 2003/2007. A comunidade local, iniciativa privada e poder público municipal fizeram o pleito em favor da continuidade da política dos Circuitos Turísticos ainda durante o processo eleitoral para todos os candidatos a governo do Estado. Foi elaborado um documento oficial, assinado por representantes de 38 Circuitos e entregue aos candidatos.

O governador eleito Aécio Neves, através da SETUR em 2003 institucionalizou os Circuitos Turísticos, conforme Decreto Lei ( ver anexo) citado anteriormente. Esse foi um passo importantíssimo para de fato legitimar os Circuitos Turísticos mineiros. Além disso elegeu os Circuitos Turísticos como uma das três prioridades do Governo atual para o desenvolvimento do turismo. Outro passo fundamental foi a Resolução da SETUR que pretende “ Instituir o Certificado de Reconhecimento dos Circuitos Turístico”. Para receber o certificado o Circuito deve estar de acordo com uma série de normas (ver anexo).

A letra “j” do número I do Artigo 2° da Resolução merece destaque : “ Ter as instituições a denominação precedida de Circuito Turístico “. Isso que dizer que em Minas Gerais foi adotada oficialmente a nomenclatura “Circuito Turístico” para as organizações regionais dessa natureza.

Sabe-se que alguns Circuitos dos 43 que iniciaram o processo de organização regional não levaram adiante as ações. Outros caminham lentamente, estão se reunindo com menos freqüência mas aos poucos estão executando algumas atividades conjuntas que mais cedo ou mais tarde irão consolidar a regionalização. Já outros estão funcionando a todo vapor, como por exemplo o Circuito do Ouro e o Circuito Serras Verdes do Sul de Minas. Tem sede própria, promovem eventos, participam de feiras, e de certa forma estão servindo de exemplo para os outros.

Vários fatores podem influenciar na paralisação ou continuidade dos Circuitos Turísticos, um deles é a localização geográfica da região que sendo próxima a grandes mercados emissores como São Paulo, tem maior probabilidade de êxito. Outro fator é a figura do gestor, que se não possuir o perfil adequado para o cargo pode levar o Circuito a cair em descrédito junto aos municípios participantes. As comunidades locais devem participar de todas as etapas o processo, caso contrario podem “boicotar” as ações do Circuito. Caberia uma pesquisa e um estudo mais aprofundado dos resultados obtidos até o presente momento dessa nova forma de organização para analisar as causas que levam certas regiões a obterem sucesso e outras não.

Não poderia deixar de registrar a preocupação com as eleições municipais em 2004. Os Circuitos Turísticos não devem ser instrumentos de política eleitoral, devem permanecer neutros e conscientizar os novos prefeitos da importância da instituição levando-os a efetiva participação. A institucionalização e priorização por parte do Estado dos Circuitos Turísticos sem dúvida nenhuma transmite uma certa tranqüilidade para continuidade do processo.

A semente da regionalização da atividade turística foi plantada em Minas Gerais. Embora algumas regiões tenham adormecido, o conceito e exemplos claros de que o caminho para o desenvolvimento do turismo passa pelo agrupamento de esforços se perpetua.

Anexos

DECRETO 43321 2003 de 08/05/2003 e RESOLUÇÃO n.º 007/2003

Bibliografia

BOULLÓN, Roberto C. Planejamento do Espaço Turístico. São Paulo : EDUSC, 2002
BENI, Mário Carlos. Globalização do Turismo : Megatendências do Setor e a Realidade Brasileira. São Paulo : ALEPH, 2003-11-09
_________________ Análise Estrutural do Turismo. São Paulo : SENAC, 1998
IRVING, Marta de Azevedo. Turismo : O Desafio da Sustentabilidade. São Paulo : FUTURA, 2002
BARRETO, Margarita. Turismo, Políticas Públicas e Relações Internacionais. São Paulo : PAPIRUS, 2003
CRUZ, Rita de Cássia. Política de Turismo e Território. São Paulo : CONTEXTO, 2000
TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Reflexões Sobre um Novo Turismo : Política, Ciência e Sociedade. São Paulo : ALEPH, 2003
MOLINA, Sérgio. O Pós- Turismo. São Paulo : ALEPH, 2003
RODRIGUES, Adyr A. B. Turismo e Geografia : Reflexões Teóricas e Enfoques Regionais. São Paulo : HUCITEC, 2001
HALL, C. Michael. Planejamento Turístico: políticas, processos e relacionamentos. São Paulo : CONTEXTO, 2001
EMBRATUR – Programa Nacional de Municipalização do Turismo: Diretrizes e Procedimentos. Brasília. 2001
SECRETARIA DE ESTADO DO TURISMO – Minas Revolucionou o Turismo : A Descoberta da Potencialidade Mediterrânea. Belo Horizonte, 2002
________________________________________Relatório de Atividades da SETUR 1999/2002. Belo Horizonte, 2002
________________________________________Plano de Infra-Estrutura Turística Regional e Participativo do Sul de Minas. Belo Horizonte, 2001
SECALL, Rafael Esteve. La Competitividad de Las Zonas Turísticas. Málaga, 2003
GOUVEIA, Merícia. O Cluster Turismo em Portugal. 2001
BAHIATURSA – Cluster de Entreterimento da Bahia. In : webpage : www.bahiatursa.com.br, 2003
ARTAVIA, Roberto. Dinámica de los Clusters : una nueva inquietud de los gerentes. In: webpage: www.incae.com.br, 2003
webpage : www.estudosturisticos.com.br
wbpage: www.descubraminas.com.br

Autora:
Jaisa H. Gontijo Bolson
Diretora de Projetos Especiais da Empresa de Turismo de Belo Horizonte - Mestranda em Turismo e Meio Ambiente / UNA /BH, Bacharel em Turismo com especialização em Educação de Formadores em Turismo pela EFESO/ Bolonha- Itália. Consultora da Fundação Israel Pinheiro. Ex-Superintendente da Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais.

Voltar