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Considerações sobre o espaço e o mercado de trabalho no turismo - Jul/05

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É fato que a atividade turística obteve uma considerável elevação a partir de 1950, e expandiu-se significativamente após a implementação de linhas aéreas comerciais e do avião a jato . Esses fatores aumentaram a possibilidade de mobilidade dos seres humanos. Muito mais motivados a “deixar” algum lugar do que propriamente “ir” pra algum lugar (Krippendorf, 1989), é que alguns contingentes deixam os seus espaços de trabalho, para empreender uma viagem que se caracteriza pela superação dos meios de transporte atuais sobre o espaço percorrido e o tempo despendido – principalmente carros, aviões e trens. O preenchimento, com atividades diversas, do período de tempo que esses contingentes passarão em seu local de destino, impõe características peculiares para todos os segmentos envolvidos no fenômeno do turismo.

Segundo dados da Embratur, 6.921.487 turistas estrangeiros desembarcaram no Brasil durante o período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005, gastando aproximadamente 3,5 bilhões de dólares. Para o abastecimento desse processo as empresas turísticas dispõem de um vasto rol de possibilidades de entretenimento. Diversos pacotes de viagem, com meios de transporte variados para chegar ao seu destino, hotéis com os mais variados estilos, alimentação e bebidas que registram traços da cultura local, muito rica, tradicional ou exótica; clubes para a recreação; espaços para compras; localidades praianas que disponibilizam uma infinidade de atividades. Mas, a que custo todo esse processo ocorre?

Observa-se que é na prestação de serviços aos turistas que os habitantes dos destinos turísticos encontram ocupação: os guias turísticos, os funcionários dos hotéis e dos restaurantes, os funcionários de clubes e do comércio entre outros, são contratados pelas empresas turísticas. Entretanto, o que também pode ser observado é o fato de que, em geral, apenas as ocupações que exigem menor grau de instrução têm sido exercidas pelos habitantes do lugar (Archer e Cooper, 2001). Por conseguinte, o nível de renda alcançado por esses habitantes reflete sempre a sua condição dentro desse processo; e essa relação pode ser percebida através do funcionamento do mercado de trabalho no qual os habitantes do local estão inseridos: o “paraíso turístico” é apenas paraíso para os turistas, e não para os habitantes desse mesmo “paraíso”, como se referem Turner e Ash (1991). Para dizer de uma outra forma, pouco é mencionado sobre as condições de trabalho no setor turístico que, segundo a própria Organização Mundial do Turismo, é o setor que tem as piores condições de trabalho e salário na economia mundial.

Por venerar o “antigo” (ou o tradicional, em termos culturais) ou o “preservado” (praias e matas, o meio ambiente), o turismo tende a estancar o processo de transformação e desenvolvimento desses espaços, submetendo a população a esse tipo de planejamento. Na implantação da atividade turística, ocorrem apenas mudanças de ocupação sem elevar a formação dos indivíduos; por exemplo, o pescador que se tornou carregador ou a família de agricultores que agora trabalha para a empresa turística. Configura-se uma mudança aparente nas ocupações da população para tornar possível a exploração do lugar pela atividade turística.

Segundo Milton Santos (2004), “o espaço dos países subdesenvolvidos é marcado pelas enormes diferenças de renda na sociedade, que se exprimem, no nível regional, por uma tendência à hierarquização das atividades e, na escala do lugar, pela coexistência de atividades de mesma natureza, mas de níveis diferentes” (p. 21), e é esse mecanismo que se observa quando a atividade turística predomina em um espaço de um país subdesenvolvido, que é o que geralmente ocorre, trazendo conseqüências para todos os segmentos da população envolvida, e que devem ser seriamente analisadas. Por exemplo, as relações de trabalho e as relações com a transformação do espaço.

Isso mostra que, dependendo do modo como o turismo é implementado em uma localidade, e a maneira como é exercido, o mesmo pode manter e até aumentar a dependência do espaço. De fato, segundo Ouriques (2005) “é possível fazer um balanço histórico desse processo, que nos indica, de modo geral, que a situação da imensa maioria dos habitantes dos países periféricos não se alterou substancialmente, tendo inclusive piorado em muitos casos (em termos percentuais)” (p. 93). Ao assumir a atividade turística como principal atividade econômica do local, o Estado concede espaço para a atuação intensa da empresa turística, e esse fato comprova que a desregulamentação do Estado e a rede turística transnacional e monopolizadora acabam por serem mantenedoras da situação de dependência do lugar (Cazes, 1999).

Referências
ARCHER, B.; COOPER, C. Os impactos positivos e negativos do turismo. In: THEOBALD, W. F. (Org.). Turismo global. São Paulo: SENAC, 2001. p.85-102.
CAZES, George. Turismo e subdesenvolvimento: tendências recentes. In: RODRIGUES, Adyr A. B. (org.). Turismo e geografia: reflexões teóricas e enfoques regionais. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1999. p.77-85.
KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989. 235p.
OURIQUES. Helton R. A produção do turismo: fetichismo e dependência.Campinas, SP: Editora Alínea, 2005. 159p.
RODRIGUES. Adyr B. (Org.). Turismo e desenvolvimento local. São Paulo: Hucitec, 1997. 207p.
SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. p.15-26
TURNER, Louis; ASH, Gordon. La horda dorada. Madrid: Ediciones Endymion, 1991. p 70-71.

Autora: Caroline Bruzamarello Caon
Graduanda do Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista Pibic/CNPq.
 

 

 

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