Ilha Grande - Out/03

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Prezado leitor, você que já teve o privilégio de estarrecer-se com a leitura de Memórias do Cárcere, relato de Graciliano Ramos, durante um tempo onde ele foi "hóspede" da policia política do presidente Vargas, no presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, já pensou no martírio dos preso diante da beleza da Ilha?

Tenho uma edição antiga de "Memórias...", em 2 volumes, mas acredito que já exista uma nova, em um só volume. Leitura importante não apenas pela importância de Graciliano para as letras nacionais, mas também para conhecer um pouquinho de nossa história política ou da vergonha que continua sendo.

Mas não é de Graciliano que pretendo falar, não agora. Falar sobre Graciliano, daria umas 8 ou 10 páginas de jornal. Quero falar, sim, de Ilha Grande. Um amigo, desbravador de 7 mares, operador de turismo, a contragosto foi passar um final de semana na Ilha. A mulher e a cunhada, mais o cunhado (cunhado é o bicho mais chato do mundo), que queriam ir ao Rio e ele teria de bancar o motorista para elas, mais o cunhado. Meu amigo odeia dirigir. Foi reclamando de tudo, da estrada, dos outros motoristas, até mesmo das paradas nos postos na beira da estrada, que mulher só faz xixi em privadas.

Como é bom ser homem. Qualquer muro, poste, tronco de árvore nos 'desapertam'. Mas, surpresa boa!, o que era para ser um final de semana insosso, só para não contrariar a mulher ou ainda dela levar uns tapas, praticamente fez com que meu amigo Danilo Andreoni tivesse de ser amarrado para sair de lá (saiu agarrado pelo pescoço pelo cunhado e estapeado pela mulher, que também lhe deu alguns chutes; a cunhada apenas lhe enfiou um saco plástico na cabeça e a falta de ar o fez desmaiar).

Tão encantado ficou com as belezas da Ilha. Sempre que falamos de magníficos locais de turismo, ele mostrou-se indeciso na preferência por Abrolhos ou Fernando de Noronha. Agora, com a Ilha Grande, ele entornou o caldo de vez. De cara, é mais perto. Portanto, o pacote turístico é muito mais barato, nem 50 'contos' a diária de casal numa pousada invocada, vi as fotos. Tem praias a dar com o pau, o arquipélago reúne 365 ilhas, de quebra tem as historias do presídio, que não mais existe. Explodido (implodido?) por determinação de um governador insensível à memória das atrocidades históricas-políticas do país.

Parece que foi lá que nasceu o embrião do Comando Vermelho, quando as "autoridades" misturaram presumíveis terroristas com bandidos comuns, já que roubo a banco era considerado crime contra a (in...?) Segurança Nacional, uma comida suculenta feita pelos ilhéus, bebida gelada além da conta.

A mulher e a cunhada de meu amigo entupiram o porta-malas com artesanatos locais, não gastaram nem 100 pilas. Meu amigo Danilo, preguiçoso que só ele, chegou a percorrer umas 3 ou 4 trilhas, na Ilha - algo que duvido, por mais que ele jure, mal consegue atravessar uma rua, tão gordo que é. Lá, na Ilha, não tem rodovias, nem carros, nem ruas, apenas caminhos abertos na mata, picadas, mas possui infra-estrutura excelente para receber visitantes, muitos visitantes. E guias que, segundo ele, contam historias deliciosas do
lugar.

Ilha Grande... Grande ilha, Graciliano, Olga Benário Prestes (também um belo livro-biografia, do jornalista Fernando Morais). O cunhado de Danilo comprou apenas 4 camisetas e 2 bermudas. Gastou a maior parte do pouco dinheiro que levou esbaldando-se com comidas caseiras de primeira, passeios baratos por praias belíssimas em escunas mais parecidas com hotéis 5 estrelas, bebidas geladas, comidas maravilhosas, hospedagens decentes, limpas...

É, ainda antes do final de ano, eu vou conhecê-la, passar uns dias lá. Ilha Grande. Grande Ilha.

Autor:
Diorindo Lopes Júnior
Jornalista e autor de "O Sol em Capricórnio" (Atual/Saraiva Editora, SP) e "Cesta de 3" (Alis Editora, BH/MG)

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