Enfim, o Turismo GLBT começa a Desabrochar... - Mar/04

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Assim como todos os movimentos sociais, o movimento homossexual ou homoerótico tem crescido e ganho visibilidade nas últimas décadas; apesar de ser tema de discussão junto à questão dos direitos humanos e das políticas públicas há muito tempo, especialmente na Europa e América do Norte. O avanço de tais discussões tem culminado com a aprovação de leis de proteção aos direitos homossexuais, incluindo os de parceria ou união civil.

Na América do Sul, formada principalmente por países considerados de terceiro mundo e por alguns, poucos, considerados “em desenvolvimento”; os movimentos homossexuais têm conseguido, também, a garantia de alguns direitos básicos para o exercício pleno da cidadania; como, por exemplo, a lei de união civil aprovada em Buenos Aires, capital da conservadora Argentina.

Os gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros – GLBT estão na mídia, nas ruas e nas praças, invadindo e questionando a tradição, os bons costumes e a retrógrada moral judaico-cristã. O que se pode parecer uma afronta, é na verdade, a conquista pela livre expressão e orientação sexual.

Uma das formas de maior visibilidade dos movimentos homossexuais têm sido as Paradas Gays, realizadas por ocasião do Dia Internacional do Orgulho Gay – 28 de Junho. Neste ano, diversos países realizaram suas Paradas Gays, mesmo em meio a guerras e epidemias , levando expressivos números de gays, lésbicas, trangêneros e simpatizantes às ruas. Só em São Paulo, segundo a Associação Parada Gay de São Paulo, 800 mil pessoas se fizeram presentes à Avenida Paulista, para celebrar a terceira maior festa da diversidade do planeta. Além da capital paulista, pelo menos outras vinte e cinco cidades, entre capitais e centros regionais do interior brasileiro, promoveram eventos congêneres.

As Paradas Gays, os estudos acadêmicos em gênero e sexualidade, a educação sexual escolar, o debate social, as campanhas governamentais, a exploração da mídia (mesmo que às vezes possa ser considerada jocosa e degradante), têm permitido que um número cada vez maior de homossexuais se emancipe ou “saiam do armário” .

Percebendo esse avanço e contrário ao mesmo, o Vaticano divulgou um documento com o título “ Considerações sobre Propostas de dar Reconhecimento Legal para Uniões entre Pessoas Homossexuais”, a qual critica a união civil por pessoas do mesmo sexo, afirmando que estas uniões atingem a concepção da criação e da continuidade da espécie humana; ou seja, contraria os preceitos da família tradicional e da catequese cristã católica. Compactuando com esta violência de gênero, o presidente estado-unidense George W. Busch, em recente discurso na sede de seu governo, declarou ser contra a legalização das uniões homossexuais.

Diante do cenário de conquistas envolvendo o direito a planos de saúde conjuntos, direito a herança ao parceiro estável, a adoção e a previdência, esta ação mancomunada de igreja e governo, deixaram claro o temor com o indesejado pelos mesmos: a conquista da dignidade e emancipação homossexual.
Apesar das declarações ideológicas, alguns empreendedores perceberam que o público GLBT está aí e ávidos por viver intensamente; inclusive, com um poder de compra muito superior aos membros das classes econômicas e familiares tradicionais. Comumente solteiros e sem parceiros fixos, possuem despesas fixas baixas, permitindo que venham gastar consigo mesmo.

Esta premissa é ratificada por FREITAG , que afirma que “ao contrário do que se imagina, o universo homossexual é composto, em sua maioria, por pessoas com bom nível sócio-econômico-cultural. Os homossexuais tendem a preocupar-se mais com sua formação intelectual e são mais dedicados ao trabalho, o que acaba por fazer com que tenham melhor renda”.

Atualmente, os mais significativos empreendimentos voltados ao público GLBT estão nos segmentos de lazer, tais como, bares, boates, saunas etc., face ao retorno garantido e rápido dos investimentos. Contudo, é preciso observar que se os movimentos homossexuais conseguirem vitórias em todas as suas instâncias, emancipando realmente ao grupo que representam, muitos destes empreendimentos estarão fadados ao fracasso; afinal, os homossexuais libertos, sentir-se-ão seguros a freqüentar qualquer tipo de ambiente, não sendo necessário confinar-se em “guetos”.

No turismo, ações isoladas de agências especializadas no público GLBT de São Paulo tem obtido algum sucesso; mesmo se considerando que, no Brasil as viagens especializadas demoraram a acontecer. Este fato vem sendo trabalhado há muitos anos na Europa e na América do Norte.

No Brasil, neste ano, novamente fora realizado o Gay Day Hopi-Hari, evento idêntico realizado nos Parques da Disney’s; e ainda está prevista a realização no Wet’n Wild, a primeira Slash Poll Party. Para 2004 está previsto o primeiro cruzeiro gay, no navio Island Escape, saindo de Santos com destino a Florianópolis.

Fora os grandes eventos e grandes viagens, as agências especializadas organizam viagens curtas, as tradicionais “escapadas” de final de semana, principalmente para cidades que incluam vida noturna GLBT agitada.

O Brasil padece de estatísticas concretas sobre o turismo GLBT, principalmente pelo fato das pessoas omitirem a sua orientação sexual, dado o preconceito. Contudo, segundo SOETHE e VIEIRA, o turista GLBT costuma gastar US$ 305,00 a mais do que os demais turistas; inclusive, apontam que estima-se que em Janeiro de 2002, 37 mil turistas do segmento GLBT aportaram em Florianópolis, gastando em média, US$ 50,00 por dia; o que pode ser considerado 30% a mais do que o turista tradicional.

Um exemplo de percepção deste segmento é o que vem ocorrendo com trade turístico de Santa Catarina, que pretende trabalhar intensamente com esse setor, principalmente nas cidades de Balneário Camboríu (bons hotéis, boa gastronomia, vida noturna, praia de nudismo e facilidade de acesso a cidades de médio e grande porte) e Florianópolis (incontestáveis belezas naturais, vida noturna agitada e belas praias).

Infelizmente, não são muitos municípios e empresários que percebem esse filão no mercado, muitas vezes por conta do preconceito e do medo do novo. Não raro, ouve-se comentários de pessoas ou organizações que buscam serviços turísticos para um grupo GLBT e quando externam quem deverá ser atendido, recém respostas negativas, sob protestos de risco de perda dos clientes tradicionais. E, isso não são situações isoladas, pois são freqüentes os relatos de constrangimentos que os turistas GLBT sofrem em hotéis e estabelecimentos congêneres. Como dois homens solicitariam aposentos com uma cama de casal sem que viessem a ser alvo de comentários e olhares indiscretos de funcionários? É comum que os funcionários da rede hoteleira aceitem a presença rápida e furtiva dos/as “acompanhantes de executivos” , mas reagem de maneira totalmente diferente quando se trata de hóspedes homossexuais. Assim, parece que a aceitação social da prostituição é maior do que a homossexualidade.

Existem hoteleiros tolerantes, que aceitam hóspedes clientes do universo GLBT, mas nem todos estão realmente preparados para recebê-los; inclusive por tolerância ser diferente de aceitação; e, onde a apenas tolerância, há também violência, truculência e negação dos direitos da pessoa.

É esta falta de aceitação para com o outro, que fez com que surgisse no mercado empresas especializadas para o segmento. Mas, estudiosos do assunto e gays ativistas se perguntam, é realmente necessário um hotel/pousada GLBT? Uma agência de turismo GLBT? Isso não aumenta a homofobia? Será que o trade turístico não deveria se preparar para atender o público GLBT como atende a outros turistas, por ex. deficientes físicos? A comunidade GLBT não acaba se confinando cada vez mais em guetos?

Alguns concordam que é necessária a existência de atendimento diferenciado para que não ocorra um choque cultural; pelo menos, enquanto a sociedade for intolerante e preconceituosa. Por enquanto, e talvez por um bom tempo, somente nos ambientes GLBT os mesmos podem fazer demonstrações de carinho e afeição.

Os profissionais do turismo devem trabalhar com a responsabilidade de satisfazer e realizar os sonhos de seus clientes, independente do gênero (classe, raça/etnia, sexo e religião). Para estes profissionais e os empreendedores do turismo, com visão de futuro, desprovidos de preconceitos e interessados em ampliar seus negócios, eis uma excelente, e pouco explorada, alternativa de investimentos.

BIBLIOGRAFIA RELACIONADA
ANGELI, Érika. Turismo gls. In: ANSARAH, Marilia. Turismo – segmentação de mercado. Futura. São Paulo. 1999.
ANTUNES, Camila. A força do arco íris. Revista Veja. Abril. 25 Jun 2003.
MAIA Cristiano. Sucesso entre público gls exige atendimento especial. An Economia. 15 mar 2002.
PINTER, Silvia. Santa Catarina acorda para o turismo gls. An Economia. 15 mar 2002.
SOETHE, Charlei. VIEIRA, Pedro. Um baú de ouro no arco-íris. Revista de divulgação cultural. Ano 24, nr 77. Proerc. 2003.
Turismo gls é segmento em alta. Disponível em www. resolvido.com.br em 18 ago 2003.

Autor:
Izac de Oliveira Belino Bonfim

 

 

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