Ensino Superior em Turismo e Hotelaria no Brasil: Um Estudo Exploratório - Mai/03

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Introdução

Este artigo aborda o tema educação para o turismo e tem por objetivo apresentar uma análise dos cursos superiores de Turismo/Hotelaria no Brasil.

Texto dividido em 4 partes
Introdução / Evolução para o Turismo
Enfoque Mercadológico pt. 1
Enfoque Mercadológico pt. 2
Conclusão

Como estudo exploratório, pretende contribuir proporcionando uma visão geral sobre o tópico e estimular a discussão de aspectos específicos como a estrutura e funcionamento dos cursos, as razões para a sua criação, o currículo, os métodos de ensino adotados, os planos de expansão, a qualidade de ensino e o relacionamento com a indústria do turismo.

No Brasil, de acordo com Rejowski (1996), os cursos superiores de Turismo, em nível de graduação, são muito recentes e datam dos anos 70. Em 1971, surge o primeiro curso de nível superior, criado por uma instituição de ensino privado, a Faculdade de Turismo do Morumbi. Outras instituições privadas, de acordo com Trigo (1991), também criam seus cursos de Turismo, a exemplo da Faculdade Ibero-Americana de Letras e Ciências Humanas, em São Paulo, em 1973; da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro, em 1974 e da Faculdade Associação Educacional do Litoral Santista, em 1976, em Santos.

No âmbito universitário, afirma o autor, a Universidade de São Paulo foi a pioneira, criando o curso de Turismo na Escola de Comunicações e Artes, no ano de 1973. Surgem depois outros cursos em universidades: Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1974, e a Universidade Católica de Pernambuco, em 1975. O primeiro curso superior de Administração Hoteleira foi criado pela Universidade de
Caxias do Sul em 1978.

De acordo com Ansarah e Rejowski (1994), no ano de 1994, existiam 33 cursos superiores de turismo/hotelaria no Brasil, sendo 29 de turismo, dois de Hotelaria e 2 em Turismo e Hotelaria. As autoras ainda comentam que a maioria desses cursos está em estabelecimentos privados ou em "universidades emergentes", que obtiveram autorização do CFE para se transformarem em universidades.

Conforme pode ser visto pelos dados do MEC/SESU/DEDES (2000), o crescimento do número de cursos superiores de turismo ou de turismo e hotelaria, no Brasil, tem sido impressionante. Segundo dados desse órgão, até 1998, havia 157 cursos, sendo 119 cursos de Turismo e 38 de Hotelaria/ Administração Hoteleira. Em 1999, 39 novos cursos foram autorizados, sendo 37 de Turismo e dois de Hotelaria/Administração Hoteleira. Em 2000, o número voltou a crescer expressivamente, pois 88 novos cursos foram autorizados pelo MEC, sendo 69 de Turismo e dezenove de Hotelaria/Administração Hoteleira. O total informado por esse Ministério é de 284 cursos, sendo 225 de turismo e 59 de Hotelaria/ Administração Hoteleira.

Ao se observarem esses dados do MEC mais de perto, verifica-se que 94% deles são ofertados por instituições privadas, e apenas 6% por instituições públicas. Entre as públicas, cerca de 3% são federais, 2% estaduais e 1% municipais. Praticamente todos os 225 cursos de Turismo, são de Turismo apenas, mas cerca de 2,2% deles oferecem um combinado de Turismo e Hotelaria, e 3,5% são de Administração com habilitação em Gestão de Turismo. Entre os 59 cursos de Hotelaria, 63% são cursos de Administração com habilitação em Administração Hoteleira.

Dados mais recentes da ABDETH (Associação Brasileira dos Dirigentes das Escolas de Turismo e Hotelaria), publicados na Folha de São Paulo, em 27 de maio de 2001, mostram uma situação muito mais dramática. Segundo essa associação, atualmente, 130 instituições oferecem cursos de hotelaria e 250 de turismo em todo o país. Em dez anos, no Brasil, o número de cursos de hotelaria em nível superior, cresceu 1.757% e o de cursos de turismo, 900%. Este artigo será apresentado em 4 partes. Inicialmente será apresentada uma breve revisão teórica sobre educação para o turismo, a seguir, a descrição do enfoque metodológico adotado com o tipo, o método, o instrumento e os procedimentos de coleta de dados utilizados na pesquisa. Na terceira parte, os resultados serão apresentados e, finalmente, as conclusões do estudo, na quarta parte.

A Educação para o Turismo

O estudo do turismo é uma disciplina relativamente nova, assim como é reconhecida como uma indústria vital e em crescimento. Segundo Amoah e Baum (1997), existem diversas definições para turista e turismo, e essa diversidade ocorre por causa da atuação dos diferentes setores envolvidos, todos usando definições para propósitos distintos. Existe também um debate sobre se a indústria do turismo pode ser vista como uma indústria por si mesma, em vez de ser uma atividade econômica, ligando setores através dos objetivos comuns dos seus consumidores.

Para esses autores, a indústria do turismo é intensiva de mão de obra e depende, para sobrevivência e vantagem competitiva, da disponibilidade de pessoas qualificadas, capazes de operar e gerenciar o produto turístico. No entanto, devido à diversidade da atividade, torna-se difícil realizar programas que atendam adequadamente a públicos tão diversos. Por sua vez, Goeldner (1988) comenta que o turismo é ainda uma disciplina emergente e que a educação para o turismo tem tido um elevado crescimento durante os últimos 50 anos, mas seu conhecimento é ainda fragmentado.

Turismo, para Cooper e Shepard (1997), é uma indústria baseada em pessoas e na qual o toque pessoal é o mais importante fato do serviço oferecido. A qualidade dos recursos humanos é, portanto, crítica para o sucesso de empresas e de indústrias como um todo.

Cooper, Shepherd e Westlake (1994) explicam três maneiras pelas quais o estudo do turismo se tem desenvolvido como uma disciplina acadêmica: inicialmente, treinamentos específicos para o setor de viagens; depois, cursos na área de negócios; posteriormente, inserção em disciplinas tradicionais como Geografia, Sociologia e Lingüística.

Echtner (1995) afirma que o desenvolvimento da educação para o turismo não é tarefa fácil em função da natureza da disciplina, que é segmentada, inter e multidisciplinar, o que cria conflitos e dificulta seu entendimento. Muitas propostas foram apresentadas com relação à disciplina; elas variam da incorporação do turismo em áreas de estudo existentes como Geografia, Administração ou Sociologia, ao estabelecimento de programas interdisciplinares ou, ainda, à criação de escolas específicas para o estudo do turismo.

Comenta também a autora que a implementação de modelos dos países desenvolvidos em países em desenvolvimento pode ser de baixo custo, mas, com certeza, será dispendiosa em função da sua ineficácia. Programas do primeiro mundo são baseados em negócios, distribuição e tecnologia sofisticados que raramente estão presentes nos países do terceiro mundo. Fatores sócio culturais e econômicos devem ser considerados para o planejamento de programas adequados às necessidades desses países. Blanton (1981) destaca que diferenças na composição e background dos estudantes, estilos de aprendizagem, atitudes com relação ao turismo, contexto do trabalho e qualificação dos professores podem afetar seriamente a utilidade do material desenvolvido em outros países. Para Linton (1987), o maior desafio dos países do terceiro mundo é desenvolver experiência própria e estabelecer estruturas gerenciais adequadas.

Howell e Uysal (1987) dizem que existem duas áreas básicas em que educação para o turismo pode ser segmentada: o treinamento vocacional (vocational training) e educação profissional (professional education). A primeira se refere ao treinamento do pessoal da linha de frente, de manutenção e de apoio. O conteúdo desses cursos tende a ser pouco teórico e mais voltado para o desenvolvimento de habilidades práticas, como, por exemplo, recepcionistas, garçons, chefes de cozinha, cozinheiros, agentes de viagem, guias de turismo e outros. A educação profissional é aquela dada para os que ocupam atividades de planejadores,
gerentes, pesquisadores e é acadêmica por natureza. Conceitos teóricos são ensinados assim como a capacidade de interpretar, avaliar e analisar informações para a tomada de decisões tanto no setor privado como no público.

De acordo com esses autores, os países subdesenvolvidos necessitam cada vez mais de profissionais que possuam percepção holística da indústria do turismo, capazes de compreendê-lo o turismo em sua totalidade, os seus interrelacionamentos, os seus impactos para evitar formas de desenvolvimento do turismo inadequadas ao país.

Embora a ênfase desse tipo de educação possa variar entre as instituições, Jenkins (1980) sugere que esses programas devem incorporar três grandes áreas de estudo. A primeira trata de um referencial analítico para a interpretação dos fluxos e tendências globais, a segunda área consideraria a análise de modelos de administração de turismo adequados para o país, e a terceira diz respeito ao ensino de técnicas de estudos de viabilidade e avaliação dos impactos do turismo.

Echtner (1995) acrescenta mais uma área de educação em turismo, o desenvolvimento de empreendedores (entrepreneurial developement). A crítica mais comum ao turismo nos países subdesenvolvidos refere-se aos impactos negativos dos empreendimentos de grande porte com relação aos seus aspectos sociais, econômicos e ambientais. Tem-se discutido que grandes empreendimentos não são tão efetivos na criação de empregos e aumento de divisas, pois existe evasão de lucros. Por outro lado, afirma a autora, as empresas locais, geralmente menores em escala, oferecem maior retorno econômico às comunidades locais.

A compreensão e a aplicação das três áreas- o treinamento vocacional, a educação profissional e o desenvolvimento de empreendedores, são fundamentais para a educação para o turismo tanto em países desenvolvidos quanto em subdesenvolvidos. No entanto, afirma Echtner (1995), estes últimos, apesar de eficientes para oferecerem educação vocacional, não têm dado a mesma importância à educação profissional e empresarial voltadas para o turismo. Existe, portanto, uma lacuna a ser preenchida nesses países para o crescimento do turismo de forma integrada e dentro de uma perspectiva de longo prazo. Este estudo pretende contribuir para o preenchimento desta lacuna e será direcionado para a educação profissional para o turismo.

Parte 1 - 2 - 3 - 4

Autor:
Profa. Rivanda Teixeira

 

 

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