Embratur da Euforia ao Esquecimento - Mai/04

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EMBRATUR DA EUFORIA AO ESQUECIMENTO: O RETORNO AS SUAS RAIZES QUANDO SERVIU A DITADURA MILITAR

Não estamos em uma ditadura militar, mas servimos a quem?

A Embratur foi criada pelo decreto-lei n. 55 de 18 de novembro de 1966, dois anos após o golpe militar de 1964 que destruiu as liberdades democráticas do povo brasileiro, impondo um modo de ser militarizado descartando qualquer possibilidade de ultrapassar a visão centrada no senso-comum. Essa anormalidade institucional e política imposta pelo capital tinham por objetivo estancar a participação popular e impor as rédeas de controle dos gendarmes norte-americanos no seio da sociedade brasileira.
Foi no interior dessa conjuntura que surgiu a Embratur, portanto sua função estava além da busca de um ordenamento legal para a formulação de uma política nacional para o turismo. Na verdade os militares nesse momento entendiam ser a Embratur o instrumento ideal para combater a idéia de ditadura assassina que os setores da sociedade nacional e internacional denunciavam.
Isso fica evidente na história nacional, quando segundo documentos oficiais o governo de Castelo Branco que acabara de assumir o comando da ditadura militar, prende mais de cinco mil pessoas. Além do que a fuga de brasileiros para o exterior é uma realidade.

Entre 1964 e 1966 passaram pelas embaixadas latino-americanas do Rio de Janeiro e pela embaixada da Iugoslávia, a única que funcionava em Brasília, cerca de quinhentos asilados políticos. Montevidéu e Buenos Aires receberam alguns milhares de brasileiros fugidos pela fronteira, entre os quais o presidente João Goulart e Leonel Brizola .

A tortura e o medo fazem do Brasil uma nação de fugas espetaculares por meio das embaixadas estrangeiras. Cerca de 2.000 mil funcionários públicos são demitidos ou aposentados compulsoriamente, políticos são afastados e impedidos de exercer suas atividades públicas.

Oficiais das forças armadas nacionalistas são punidos e colocados na reserva e todas as garantias constitucionais são suspensas, e os inquéritos policial-militares (IPMS) devoravam as esperanças da volta do estado de direito de mais de 2.000 pessoas.

Os expurgos se deram em todas as áreas da sociedade, na educação, na saúde, na economia, na cultura, na política e principalmente no interior do movimento estudantil, segundo a ditadura onde há a presença de subversivos, que são objetos de perseguição e caça pelo comando militar.

A pressão da sociedade civil contra o golpe militar era constante e tenaz, casos como Zuzu Angel e seu filho trouxeram fissuras aos donos do poder. Apesar da existência dos atos institucionais e do aparato de apoio logístico dos órgãos de repressão, corações e mentes se levantaram pela luta volta democrática.

No exílio os brasileiros atuaram junto aos movimentos ligados aos direitos humanos e com a colaboração dos partidos de esquerda armam varias centrais de comunicação e difusão, com o objetivo de veicular os horrores da ditadura por meio de notícias do Brasil, referentes a fontes oficiais e até clandestinas. A abrangência e o impacto dessa difusão em larga escala provocou no interior do aparelho de estado grandes ondas de repressão junto aos estudantes, intelectuais, políticos de esquerda e população em geral.

Como um trabalho de denúncia os exilados brasileiros conseguiram movimentar uma parte significativa da opinião pública mundial contra as atrocidades provocadas pelo governo militar, criando em diversos países tablóides, revistas e jornais.

A imprensa no exílio foi editada em diferentes países: Argélia, Chile, França, Suécia, Itália, Suíça, Dinamarca, Noruega, Alemanha ocidental, Alemanha oriental, Portugal, Inglaterra, México, Costa Rica, Argentina. Mas foi, sem dúvida, em Santiago e Paris que a imprensa concentrou-se. Nas duas capitais do exílio brasileiro, apareceram não só o maior número de periódicos, mas também os mais expressivos e os de maior duração .

É nesse momento que os militares junto aos seus homens de confiança tabulam a necessidade de criar um órgão nacional que seja responsável em fazer a contra propaganda no exterior sobre as maravilhas do Brasil. E nada melhor que o turismo para ser o instrumento capaz de passar a idéia de país dos trópicos e núcleo mundial do pecado capital.

Surge a Embratur que tinha a função de ordenar uma política nacional de turismo, conforme relato do seu primeiro presidente, Joaquim Xavier da Silveira que foi um dos diretores da Associação Comercial do Rio de Janeiro, o que demonstra o poder do Rio como força do turismo nacional e que a tônica do padrão dado à divulgação do Brasil foi, mar, sol, mulheres douradas da praia de Ipanema com seu biquíni padrão de exportação:

f) finalmente, hipótese indispensável a ser fixada, a divulgação e promoção do Brasil no exterior. A tarefa é de toda a máquina governamental tantos nas áreas estaduais como na federal. Cumpre ser organizado um verdadeiro pool, capaz de lançar a imagem do Brasil como país a ser visitado e conhecido.

A Embratur buscando sua função inicial de porta voz do governo brasileiro elabora e divulga um marketing oficialista, mostrando a idéia de um Brasil multiracial, pacifico, democrático e ordeiro para o mundo. Apela para uma propaganda de exploração do erotismo e beleza da mulher brasileira, bem como, trabalha o lado do exótico e da diversidade cultural demonstrando uma convivência social cuja existência é muito mais produto de romances e novelas do que da realidade histórica do país.

O objetivo era tornar a Embratur instrumento capaz de veicular a propaganda política oficial de apoio à ditadura militar para o mundo, divulgando a imagem da nova democracia brasileira em oposição a denúncias contra as ações do governo militar. Entretanto, quando lemos e refletimos a historia nacional, percebemos que essa razão principal e verdadeira se torna um dos motivos que levaram o governo a criar a Embratur como órgão de primeiro escalão.

Nada melhor do que montar uma propaganda política oficial que seria veiculada por meio de um órgão de turismo, em que as belezas do Brasil serviriam para ocultar o que de fato estava ocorrendo no país. Com um apelo voltado para a plástica da mulher brasileira, o carnaval e a hospitalidade do povo no bem receber o turista estrangeiro, criou-se instrumentos que exploravam o lúdico das pessoas passando uma mensagem de otimismo e de ufanismo nacionalista.

Segundo os militares era comum e extremamente maléfica a propaganda e a campanha antipatriótica que se alastrava dentro e fora do território brasileiro, conforme a fala dos generais em vários de seus discursos, expressam de forma virulenta o combate contra os chamado “maus brasileiros” com os seguintes comentários:

“Há uma frente de informação que difama nosso país e mantém em nossa terra repórteres que mentem lá fora, apresentando um quadro brasileiro inteiramente falsificado, inteiramente pejorativo. Nada de importante acontece no país sem a ação dos comunistas. Há uma poeira vermelha nos olhos do povo e de grande parte das autoridades brasileiras”.

A idéia de que havia uma orquestração contra o governo militar dentro e fora do país, reforçou a intenção de criar um órgão que veiculasse os princípios do nacionalismo verde amarelo, contra ponto ao perigo vermelho. Esses foram transmitidos via futebol, carnaval, sol, praia e mulheres, por isso, as propagandas elaboradas pela Embratur desde sua fundação primam pela despolitização, destacando o erotismo da brasileira e a alegria maquiada pelo

Como órgão possuidor de um “glamour” próprio que foi criado e cultivado pelos políticos que ocuparam sua presidência e como canal interativo que o mesmo acabou funcionando junto à mídia nacional e internacional sobre como enxergar o Brasil. Tudo isso tornou a Embratur uma das entidades públicas mais disputadas no interior do cenário nacional, políticos e partidos recebem o setor de turismo como resultado de barganha política e não com a proposta de desenvolver uma política nacional para de turismo.

A Embratur sempre foi objeto de partilha política pelo estado, nele foram triturados vários nomes, uns optaram por viajar ao bel prazer ou utilizaram esse cargo público como ponte para alçar vôos maiores, outros para badalar a vida na coluna social ou ainda editando erros grosseiros na política nacional de turismo como exemplo do PNMT.

Hoje infelizmente o turismo serviu para acomodar o apoio político ao governo Lula, excelente para nós petistas, mas um desastre para o turismo brasileiro. Senhor presidente, como sempre me dirijo a vossa senhoria, apesar de nunca ter recebido uma resposta às minhas indagações, mas continuo persistente, pois entendemos que esse governo é do povo, essas são as raízes desse partido e de vossa senhoria.

O desastre que fizeram com a Embratur transformando-a em um gigantesco Convention Bureau e estimulando de forma irresponsável todo o território nacional na lógica de que o turismo prioritário é o receptivo. Essa irresponsabilidade fez com que comunidades de expressão turísticas, mas com, uma tímida infra-estrutura para o turismo receptivo, desenvolvam imensas bravatas em torno da luta para a criação dos Convention.

Divulgar o Brasil no exterior é ótimo, mas querer transformar “a mercadoria Brasil” em algo que se pechincha, em que a marca ainda é a sedução de nossas mulheres, o sol de nossas praias, o carnaval de nossa plástica. Somos tão inconseqüentes que não nos vergonhamos de sermos vistos como rota do turismo sexual. Será que um dia teremos uma verdadeira política nacional de turismo? Será que a Embratur continuará a ser usada pela ditadura e democracia para interesses próprios?
Basta de pessoas erradas em lugares certos.

Autor:
João Filho

 

 

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