A Evolução do Mercado de Cruzeiros Marítimos - Jun/05

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Eles foram chegando de mansinho, e aos poucos, integraram-se à paisagem de várias cidades à beira-mar do país. Normalmente, de novembro a abril, os transatlânticos ajudam a enfeitar um pouco mais as belas praias do litoral brasileiro, dividindo o espaço com embarcações de pesca e de passeios turísticos. Há alguns verões atrás, mais precisamente na temporada de 1999/2000 o navio Splendour of the seas foi o divisor de águas do mercado de cruzeiros marítimos no Brasil, antes desse gigante de 70,000 toneladas os navios que fizeram história em águas brasileiras foram os da Costa Cruzeiros, navios de médio porte. Hoje, passadas algumas turbulências - primeira em virtude da desvalorização do real, segunda em torno das discussões do visto de trabalho para tripulantes de outras nacionalidades, terceiro o número de trabalhadores a bordos desses navios - já se pode destacar que o mercado brasileiro de cruzeiros marítimos despontou e se consolidou. Para se ter uma idéia, na última temporada estiveram em águas territoriais brasileiras os seguintes navios: Pacific e Blue Dream da Pullmann Tours, Island Escape da Island Cruises, Armonia da MSC Cruises, Costa Victória e Costa Tropicale da lendária Línea C ou Costa Cruzeiros. Esse franco crescimento, na verdade, foi impulsionado pelo crescimento das companhias marítimas no exterior, como destaca PERMUY , e a previsão é que a ”indústria dos cruzeiros marítimos continue crescendo num ritmo acelerado nos próximos cinco anos”. Observa-se que as grandes companhias marítimas inauguram em média dois navios por ano. A maior participação no mercado de cruzeiros marítimos é do Caribe e Costa Norte Americana, entretanto existe uma saturação desses mercados e as empresas estão visando novos destinos turísticos.

Normalmente a temporada brasileira, coincide com o inverno no hemisfério norte, quando as companhias marítimas deslocam seus navios ociosos para esse novo mercado emergente. As armadoras brasileiras descobriram que os brasileiros e sul americanos gostaram da novidade e já incorporam em suas férias as viagens de navio. Os turistas descobriram que viajar de navio é vantajoso, pois oferece uma grande variedade de opções de lazer e entretenimento como se fosse um resort flutuante, além de possibilitar a visita a vários destinos cobiçados. A viagem se torna benéfica, pois alia o luxo e conforto dos resorts e hotéis cinco estrelas com a possibilidade de desfrutar de novas culturas, cidades turísticas, atrativos naturais, entre outros.

Para se ter uma idéia desse crescimento, nem bem terminou a temporada de 2004/2005 e as armadoras já anunciaram para o mercado turístico as seguintes novidades: Concretiza-se a Pullmann Tours no Brasil através da nova empresa CVC Cruises, a qual trará para a próxima temporada novamente o navio Blue Dream e o navio Pacific, este, aliás, irá permanecer o ano inteiro na costa brasileira. A Costa Cruzeiros vendeu recentemente o navio Costa Tropicale, e para competir, aposta na vinda do estrondoso sucesso do Costa Victoria de 74.000 toneladas (o maior navio na costa brasileira após o Splendour of the Seas) e a grande novidade para a próxima temporada é o Costa Romântica. A MSC Cruises também se consolidando no mercado brasileiro traz novamente o Armonia, um grande sucesso dessa temporada, e o Melody que já circulou por nossos mares. A Island Cruises, através da Sun & Sea (que implantou a novidade do cruzeiro informal no Brasil com o Island Escape) anunciou recentemente a aquisição do navio Horizon da Celebrity Cruises, no qual serão investidos 20 milhões de dólares em reforma e mudará seu nome para Island Star que será batizado e inaugurado em território nacional. Se grandes novidades consolidam o mercado brasileiro, no exterior não é diferente. O mercado turístico aguarda ansiosamente o término daquele que será o maior navio do mundo: o Freedom of the Seas da Royal Caribbean (hoje esse posto pertence ao Queen Mary II da Cunard).

Por um lado, as grandes companhias investem cada vez mais em novos navios, pois os destinos tradicionais como Caribe, Mediterrâneo, Bahamas entre outros já estão ficando saturados. As empresas pretendem investir nos destinos exóticos e isso é um privilégio para o Brasil. O país poderá ganhar com isso, mas, primeiramente precisa investir e melhorar sua infra-estrutura portuária e turística. Para FRAGA precisamos “arrumar a casa” se quisermos receber esses navios ociosos durante o inverno no hemisfério norte. Mas o que significa “arrumar a casa” ?

As operações portuárias são o principal entrave para o desenvolvimento do turismo náutico, ou seja, falta uma infra-estrutura adequada. Os portos brasileiros não oferecem condições apropriadas, as quais são encontradas em outros mercados. No Brasil os portos são criados com equipamentos para navios cargueiros, e não para embarque/desembarque de turistas de viagens marítimas. Por várias ocasiões os passageiros foram tratados como “grãos” nos portos brasileiros, desembarcando em meio a contêineres e mercadorias em geral.

Existem diferenças para a classificação de portos de cruzeiros marítimos, que de acordo com AMARAL é:

• Portos de Trânsito: Portos para escalas durante um cruzeiro, sem embarques e desembarques, somente com trânsito de passageiros.

• Portos Principais (Turnaround): Embarques e desembarques em larga escala, concentrando o início e o término de um cruzeiro. Normalmente esses portos oferecem fácil acesso a aeroportos internacionais e estão em localização próxima aos maiores mercados consumidores de cruzeiros, em condições geográficas que permitem a criação de roteiros atrativos.
Já, MONTEJANO define porto como:

• “Os portos são lugares de costa-marítima, fluvial e lacustre, definidos dos elementos - ventos e marés - que oferecem segurança e infra-estrutura adequados para realizar as operações de tráfego de passageiros e carregamentos.”

Poucos municípios brasileiros já se estruturaram, um exemplo é o município de Búzios, no Rio de Janeiro. Na temporada de 2002/2003 a cidade recebeu 57 escalas, e em cada parada desembarcaram em média 1.800 turistas, a maioria pessoas de classe média. Cada turista gastou em média R$ 100,00 na cidade, com as 57 escalas, eles movimentaram na cidade cerca de 10 milhões de reais no comércio local. Visualizando esses números não seria interessante investir nesse segmento? Os navios que navegam por aqui, normalmente fazem os mesmos roteiros envolvendo aqueles destinos já estruturados para receber os navios como: Santos, Rio de Janeiro, Búzios, Ilhabela, Porto Belo, Salvador, Ilhéus, Florianópolis, Angra dos Reis, Arraial do Cabo e na última temporada poucas novidades como Vitória no Espírito Santo e Paraty no Rio de Janeiro. E uma ironia que o Brasil, com mais de 7.000km de litoral, com rios navegáveis como o Amazonas e grande diversidade de atrativos naturais, culturais e históricos e com clima tropical durante o ano inteiro tenha somente poucas locais consolidados nos trajetos dos navios. Tudo isso em virtude da inexistência de infra-estrutura turística e portuária para receber esses navios. Fortaleza, Belém do Pará, Natal ou outra cidade do nordeste não poderiam ser um porto principal durante o ano inteiro? Não poderíamos ter um porto de partida inclusive para o Caribe e outras regiões do norte e nordeste do país? Na verdade, essas cidades precisam de investimento, de projetos dentro dos princípios do desenvolvimento sustentável, que outras cidades, localidades e/ou praias participem com uma fatia desse mercado.

Algumas preocupações foram focos de estudos como a questão da capacidade de carga, os impactos negativos ao meio ambiente, a influência dos turistas na vida social e cultural dos receptores e assim por diante. Novamente cito Búzios como exemplo, no começo da vinda dos navios foram exploradas todas essas questões, principalmente a questão da capacidade de carga. A solução é oferecer equipamentos turísticos distantes até 200km do local de desembarque/embarque dos cruzeiristas, para o qual eles possam ir e voltar no mesmo dia. Segundo BOULLÓN , essa é à distância em que os produtos podem ser utilizados como pacotes dentro do limite estabelecido pelo tempo de visitação e retorno.

O mercado brasileiro está satisfeito com as novidades de grandes e novos navios na costa brasileira, mas há muito tempo deseja ansioso novos roteiros e destinos. O que nos resta é nos prepararmos, trabalhando e cobrando dos governos locais investimentos nessa área, para que novas localidades possam fazer parte desse empreendimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMARAL, R. Cruzeiros Marítimos. São Paulo: MANOLE, 2002.
BOULLON, R. Planejamento do Espaço Turístico. Bauru: EDUSC, 2002.
FRAGA, H. Na Indústria de Cruzeiros, o Futuro é Agora. In: AMARAL, R. Cruzeiros Marítimos. São Paulo: MANOLE, 2002.
MONTEJANO, J. et al. Estrutura do Mercado Turístico. 2. ed. São Paulo: ROCCA, 2001.
PERMUY, J. Visão da Indústria dos Cruzeiros. Disponível em http://www.userway.com/portugues/index.htm. Acesso em: 05 Jul. 2002.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BENI, M. Análise Estrutural do Turismo. 5. ed. São Paulo: SENAC, 2001.
CASTELLI, G. Turismo Atividade Marcante. 4. ed. Caxias do Sul: EDUCS, 2001.
QUEENSBERRY. Viagens e Turismo (mimeo). I Seminário de Cuzeiros Marítimos Curitiba, 2000.
PALHARES, G. et al. Transportes Turísticos. São Paulo: ALEPH, 2002.
TORRE, F. Sistema de Transporte Turístico. ROCCA: São Paulo, 2002.
UFPR. Sistemas de Bibliotecas. Citações e Notas de Rodapé. Curitiba: Ed. da UFPR, 2000 (Normas para Apresentação de Documentos Científicos, 7)
UFPR. Sistemas de Bibliotecas. Referências. Curitiba: Ed. da UFPR, 2000 (Normas para Apresentação de Documentos Científicos, 6).

Autor: Izac Bonfim

 

 

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