A Crise nos Cursos Superiores de Turismo: De Quem é a Culpa? - out/04

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Nos últimos tempos tenho ouvido de vários estudantes e recém formados em turismo, que o curso de graduação não lhe dá base para nada, que o mercado de trabalho não está fácil, que se ganha pouco, que o bacharel em turismo só tem a opção do subemprego, como atendente de hotel, agência de viagem, companhia aérea e etc. Uma outra conversa, agora essa dos professores dos cursos de turismo, é a de que os alunos são fracos, não querem nada com nada, não lêem, não estudam, são desinteressados, despreparados, vão às aulas apenas para conseguirem um diploma e por isso não conseguem emprego.

Mas eu pergunto a vocês, será que o estudante de turismo está fazendo a sua parte? Ou realmente esse é o perfil de quem estuda turismo? Será que os cursos de turismo fazem a parte que cabe a eles, oferecendo uma grade curricular que permite com que o aluno consiga um emprego, bons professores, laboratório de pesquisa, banco de estágios, projetos de extensão, investimentos em informática como em software específicos para estatísticas, reservas de hotéis, os sistemas utilizados pelas cias aéreas, biblioteca atualizada, visitas técnicas de qualidade, incentivo a empresa junior e etc? Sinceramente, acho que as duas partes tem de mudar.

Enquanto as universidades considerarem os curso de turismo como um curso a mais, fácil de administrar, “barato” e que não necessita de investimentos, nada mudará. Por outro lado, se os estudantes também não mudarem sua postura e realmente começarem a encarar o turismo como uma atividade econômica, que tem seus pontos fortes e fracos, que necessita de profissionais bem preparados, com conteúdo teórico e conhecimento o suficiente para empreender, criar novas oportunidades, mudar o mercado, a situação pode continuar como está.

O MEC tem sua parcela de culpa, a aprovação desse número enorme de novos cursos de turismo em tão pouco tempo foi uma irresponsabilidade do governo. As universidades não estavam preparadas para a abertura desses cursos, não possuíam e acho que ainda não possuem, professores qualificados, as grades curriculares foram elaboradas às pressas, por pessoas que não tem conhecimento no setor turístico, exclusivamente para atender as exigências e os prazos do MEC. Conseqüência disso é que mais da metade desses cursos recém-criados, não estão conseguindo alunos o suficiente para fecharem novas turmas e as turmas que estão nos períodos mais adiantados sofrem com o número reduzido de matriculas. Esse fato influencia diretamente na qualidade do curso, pois o aluno que é reprovado em uma determinada disciplina não tem como repeti-la, pois não existem turmas para que isso ocorra. Muitas universidades nessa situação preferem não reprovar os alunos, mesmo que eles não apresentem o rendimento necessário, apenas para não aumentar os prejuízos com o curso de turismo. A partir disso, o que encontramos no mercado? Profissionais com péssima formação, despreparados e desmotivados.

E será que a proposta de capacitação oferecida pelos cursos de turismo atende a demanda do mercado? Esses profissionais recém formados conseguem elaborar um projeto de consultoria turística, gerenciar uma agência de viagens, gerenciar um hotel, uma pousada, abrir um negócio próprio no setor de eventos, recreação, elaborar um estudo de viabilidade, trabalhar em uma posição estratégica dentro de um órgão público, capacitar pessoas no setor turístico? Esses alunos estão se formando para serem o quê? Sinceramente o que esses cursos estão fazendo com os alunos é uma crueldade. Não estou generalizando, existem algumas boas propostas no país. Esse desanimo coletivo dos alunos e dos recém formados não é em vão, os profissionais de turismo não estão conseguindo encontrar um espaço, pois, na minha opinião, esse espaço ainda é amplo demais, confuso demais e acaba perdendo foco.

Será que a atividade turística realmente é tão abrangente como considera a Organização Mundial de Turismo? O que poderia ser realmente considerado turismo, como atividade econômica e qual a parcela de atividades de outros setores agregados ao turismo, que são conceituadas como turismo, mas que talvez sirvam apenas como argumento para justificar a própria atividade turística? Os empresários se aproveitaram dessa indefinição e no discurso de que o turismo poderia ser a galinha dos ovos de ouro e a partir disso começaram a pipocar os cursos de turismo no país nos últimos sete anos.

Essa falta de foco começa a dar resultados claros, dentre eles a própria formação do bacharel em turismo, que não consegue se colocar no mercado, o fechamento de cursos de turismo por falta de alunos, o número de alunos que trancam o curso no meio o caminho só aumenta a cada ano, o desinteresse pela atividade pelos vestibulandos, a má formação dos professores que são bacharéis em turismo, e outros. Vocês não acham que alguma coisa está errada? Eu tenho certeza que sim.

Autora:
Jaisa H. Gontijo Bolson
CEATUR - Fundação Israel Pinheiro

 

 

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