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Para Compreender o Contato Cultural do Turista - Ago/05

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Após a segunda guerra mundial, formou-se no imaginário coletivo de muitas nações que o desenvolvimento do turismo traria consigo benefícios econômicos e sociais ilimitados aos países que nesse setor investissem, sem os problemas trazidos em tempos passados pelas revoluções industriais, como bem detalha Paul Lafargue em sua obra clássica sobre o ócio:
É preciso vê-los chegar pela manhã à cidade e partir toda tarde. Entre eles há uma multidão de mulheres pálidas, magras, caminhando descalças pela lama e que, à falta de guarda-chuva, quando chove ou neva, põem sobre as cabeças o avental ou a saia de baixo a fim de resguardar a cabeça e o pescoço. E uma quantidade ainda mais considerável de crianças não menos sujas, não menos macilentas, coberta de trapos, sujas com o óleo das máquinas que cai sobre elas enquanto trabalham. Estas, mais protegidas da chuva graças à impermeabilidade de suas roupas, nem mesmo carregam, como as mulheres de que falamos um cesto com os alimentos do dia; mas trazem nas mãos, ou escondem sob a roupa ou onde podem o pedaço de pão que será todo seu alimento até a hora de voltarem pra casa. LAFARGUE, P. O direito a preguiça. São Paulo: Hucitec; Unesp, 1999. p.75

Muitos impactos foram esquecidos de serem mencionadas e por fim analisadas sobre uma outra maneira, ou seja, o fenômeno turístico pode ser olhado com os mesmos olhos de outrora, com os mesmo olhos cegos que não atingem o âmago dos valores sociais, culturais, econômicos, políticos e tecnológicos capazes de influenciar esse fenômeno que chamamos de turismo.
Primeiramente, quando uma pessoa chega a um destino turístico, o impacto do contato desse viajante (visitante) com o local se da pelo uso dos sentidos, notadamente em prol de analisar a aparência da região, ou seja, o viajante num primeiro instante estabelece uma relação totalmente superficial com o lugar, com as pessoas, com o meio ambiente de um modo geral.

Assim sendo, passado esse primeiro contato, o viajante começará a procurar saciar as expectativas que o levaram a realizar aquela viagem, que na era pós-moderna pode ser caracterizada principalmente pela busca de um caráter existencial das viagens, buscando um aprendizado constante, auto-conhecimento, conhecimento de si próprio e dos outros, fuga da vida cotidiana, enfim, uma gama de desejos que se pretendem realizar.

Para tanto, teoricamente o turista deve-se enquadrar ao local visitado e consequentemente adquirir uma maior comunicação e interação com a comunidade local, penetrando em sua cultura e hábitos cotidianos. Realmente isto acontece na maioria das vezes, porém a grande questão que se coloca é saber o que está ocorrendo de forma verdadeira, ou melhor, se os turistas não estão mistificando, como afirma o pensador Karl Marx as relações sociais de uma determinada comunidade, as quais não conseguem transpor barreiras ilusórias e simulatórias da ideologia da classe dominante acabando por fazer do local um mundo fetichizado das relações sociais:Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem entre outras coisas uma consciência, e é em conseqüência disso que pensam; na medida em que dominam enquanto classe e determinam uma época histórica em toda a sua extensão, é lógico que esses indivíduos dominem em todos os sentidos, que tenham, entre outras, uma posição dominante como seres pensantes, como produtores de idéias, que regulamentem a produção e a distribuição dos pensamentos da sua época; as suas idéias são, portanto, s idéias dominantes da sua época. MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã: crítica da filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão na dos seus diferentes profetas. 3°ed. Lisboa: Editorial Presença, s/d. p.56.

Deste modo, quando pretendemos tomar por base um exame mais detalhado da comunidade local pelos olhos da pessoa que viaja, chega-se a conclusão de que na maioria das vezes essas barreiras místicas não estão sendo realmente transpostas, tornando o turismo um circuito de ilusões ligadas ao senso-comum, uma viagem onde o que aparece e o que se busca é a autenticidade encenada como ocorre na leitura critica aos parques temáticos, dirigindo seus olhares somente aos pontos que foram maquiados, portanto de interesse comercial para serem observados, embrenhando-se assim, em um mundo de ilusões e fetiches.

A ideologia, pertinente aos turistas, são visões do local a ser visitado, provenientes de informações totalitárias (sub-informações e a formação de pseudo-informações, que dão uma imagem ideal/lendária da localidade). A encenação e a camuflagem contribuem para criar um universo em que milhares de pseudo-informações louvam a excelência do sistema turístico. MOESCH, M. M. A produção do saber turístico. São Paulo: Editora Contexto, 2002. p.42

Portanto, faz-se a seguinte indagação:
─ Como poderá o turista transpor as barreiras da aparência e percorrer as mais íntimas particularidades do referido local no seu verdadeiro valor de essência?

O primeiro passo a ser tomado, partindo do olhar do viajante e não do nativo, seria encontrar uma maneira de analisar o objeto fora dele, ou seja, fora da referência empírica em que estão situados, percebendo as coisas que de imediato não são visíveis para uma pessoa comum, sintetizando e abstraindo da realidade perceptível os fatos que formariam posteriormente o todo pensado.

Assim sendo, para obter uma análise mais aprofundada e concreta do objeto de estudo (localidade), se faz necessário à transposição do mundo real para o mundo pensado, a ausência do misticismo, a fuga do simples empirismo, ou seja, o desvio do chamado mundo fetichista. Com essa visão, parte-se de uma análise dedutiva do objeto, analisando o ser humano como um conjunto das diversas relações sociais existentes nessa localidade.

Portanto, esse sublime viajante perceberia primeiramente a máscara que encoberta todos os rostos e atitudes desses operários do entretenimento, que são capazes de manipular suas reações e comportamentos em favor da contemplação, do circo armado, do grande teatro onde esses viajantes se reúnem para contemplar espetáculos de acrobacia, equitação, equilibrismo, palhaçadas, enfim, habilidades diversas entre um verdadeiro disfarce capaz de atrair cada vez mais a atenção desses espectadores.

Esse teatro, ou circo como queiram, de uma forma ou de outra esconde todas as contradições e conflitos que existem na região, todos os problemas que aquele trabalhador passa para inverter a ordem das coisas e agradar ao turista, enfim como Krippendorf afirma em seu livro Sociologia do Turismo: “tudo que passa para se adaptar a esse viajante e não o viajante a ele”.

Contudo, esse nativo inserido agora numa comunidade imaginada, ou seja, simbólica e objetiva aos olhos do turista carrega consigo a necessidade de por em prática alguns artifícios para produzir essas atrações inventadas, prevalecendo então o uso da técnica da reprodução em vez de sua autenticidade. Essa técnica, jeito, maneira ou habilidade especial de executar ou fazer turístico, manifesta-se principalmente na ironia dos autóctones, ironia essa que constrói a base, fundamento, sustentáculo desse circo.

Neste sentido, argumenta Comte-Sponville:
A ironia não é uma virtude, é uma arma-voltada quase sempre contra outrem. É o riso mau, sarcástico, destruídos, o riso da zombaria, o riso que fere, que pode matar, é o riso a que Spinoza renuncia (“non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere”), é o riso do ódio, é o riso do combate.Útil?Como não quando necessário. Que arma não o é?Mas nenhuma arma é a paz. Nenhuma ironia é o humor.4

No entanto, essa forma irônica e dissimulada de demonstrar seus atributos culturais vai se conduzindo cada vez mais para o lado artificial, para o lado fingido, forçado, que na verdade faz parte dos interesses da classe dominante, pois o interesse dos formuladores e detentores do poder dos destinos turísticos é esse, negligenciar a comunidade local até o ponto de desfigurarem completamente suas antigas e reais manifestações, para que esses não tenham mais conhecimento do mundo que habitam, dos aspectos comunitários que antes os uniam, dos laços familiares que agora se degeneram, de sua paisagem alterada, e finalmente, o objetivo alcançado, ou melhor, o poder de desfigurar toda um agrupamento humano para que posteriormente possam entrar com suas escavadeiras, tratores e máquinas a fim de cravar sua bandeira no solo sobre o qual se anda , comprando suas terras a preços ínfimos, para posteriormente comercializa-las a um preço notoriamente incabível as condições da população localista, os empurrando para longe dos locais comercialmente atrativos, deixando para trás apenas o rastro da ganância, ambição, e lógico, os danos matérias, morais, físicos e psicológicos que dizem respeito aos que já não estão mais em exercício de sua autêntica terra natal.

Portanto, fazendo-se uso dessas argumentações anteriores, possibilita-nos indagar o caráter desumano das viagens, que por sua vez torna muito difícil o sucesso propagado e introduzido na mente das pessoas de que o turismo trará consigo benefícios econômicos e sociais ilimitados a esses países que nele procurarem investir.

Contudo, é de conhecimento de todos que o turismo cada vez mais faz com que o bolo econômico cresça, vigore-se, fortifique-se, apodere-se, porém o que se mostra é que as fatias desse bolo não estão sendo divididas corretamente, predominando nas mãos dos que têm o poder do capital. Esse crescimento esperado está acontecendo sim e muito rapidamente ao longo dos anos, mas como sempre continuará beneficiando somente a classe dominante, onde suas fatias são cada vez maiores e robustas, deixando apenas os pequenos fragmentos para aqueles que verdadeiramente deveriam estar comendo a melhor fatia.

A esperança é que não somente em aspectos econômicos quantitativos venha ser a contribuição que o turismo possa dar para os tempos atuais e vindouros, más sim a equidade, que se consiste em igualdade, retidão e equanimidade, fazendo com que os benefícios sociais, culturais e econômicos de uma atividade sejam maximizados entre as diferentes categorias sociais, propiciando benefícios a todas as pessoas e não somente a classe preponderante.

Por conseguinte, para que isso aconteça, para que o turismo torne-se uma atividade benevolente, ou seja, para que ocorra uma humanização totalitária ao ponto de demandar o bem comum, é preciso ser levados em consideração muitos aspectos relativos ao mundo pós-moderno, que é composto por contradições, incoerências, oposições entre classes, ou melhor, um todo formado por inúmeras relações sociais.

Como uma colcha de retalhos, a pós-modernidade é feita de um conjunto de elementos, totalmente diversos, que estabelecem entre si limitações constantes, feitas de agressividade e amabilidade, de amor e ódio, mas que não deixam de constituir uma totalidade específica, que é preciso levar em conta. O desenvolvimento político, a saturação das grandes idéias longínquas, a fraqueza de uma moral universal podem significar o fim de uma certa concepção de vida, fundada sobre o domínio do individuo e da natureza, mas isso pode, também, indicar que uma nova cultura está nascendo. No cerne dessa nova cultura, o turismo praticado por 667 milhões de pessoas no ano de 1999, faz parte dos signos deste fim de era.5

Por fim, essa multiplicidade e abundância dos discursos em relação ao turismo em consonância com sua gradual progressão no aumento da produção de mercadorias e serviços, devem priorizar a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um, respeitando as diferenças, contradições e diversidades entre as mais variadas categorias da sociedade, fazendo-se ir adiante a questões ambientais, culturais e econômicas a fim de promover o benefício de quem realmente está comprometido com as causas do turismo, tornando o fenômeno uma causa válida para todos e não apenas para certo grupo determinado de indivíduos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SERRANO, C.; BRUHNS, H. T.; LUCHIARI, M. T. D. P (orgs.). Olhares contemporâneos sobre o turismo. 2°ed.Campinas, SP: Papirus, 2000. (Coleção Turismo)
TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. A sociedade pós-industrial e o profissional em turismo. 2°ed.Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção Turismo)
IGNARRA, Luiz Renato. Fundamentos do Turismo. São Paulo: Pioneira, 1999.
KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do Turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. 3°ed. São Paulo: Aleph, 2001.
MOESCH, Marutschka Martini. A produção do saber turístico. São Paulo: Editora Contexto, 2002.
LAFARGUE, Paul. O direito a preguiça. São Paulo: Hucitec; Unesp, 1999.
MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã: crítica da filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão na dos seus diferentes profetas. 3°ed. Lisboa: Editorial Presença, s/d.
MARX, Karl. Para a Crítica da Economia Política – Salário, preço e lucro – O rendimento e suas fontes. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

Autores:
Guilherme Andreatta Soares
Acadêmico de Turismo e Hotelaria do Centro Universitário de Maringá (CESUMAR) e de Ciências Econômicas da universidade Estadual de Maringá.
João dos Santos Filho
Bacharel em Ciências Sociais e em Turismo – Professor da Universidade Estadual de Maringá – UEM. Professor do curso de turismo do Centro Educacional Filadélfia de Londrina. Mestre em Filosofia e História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Aluno especial do doutorado em ciência do turismo na ECA/USP.

 

 

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