Contribuições para a Regulamentação do Bacharel em Turismo - out/04

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Lendo o Caderno de Turismo de A Gazeta do dia 28 de Julho interessei-me por uma entrevista que leva em questão um assunto de extrema relevância para a estruturação e desenvolvimento do turismo no Brasil: a necessidade da regulamentação da profissão, um assunto pouco discutido e que foi alvo de reflexão em uma entrevista com Maria Aparecida Bittencourt, presidente da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo seccional do Espírito Santo (ABBTUR/ES). Coincidentemente este assunto foi objeto de debate em sala de aula, apresentado na matéria de filosofia e ética profissional, no qual julguei ser de grande importância um aprofundamento em informações. Venho então transmitir estas informações adquiridas e expressar minha opinião sobre o assunto.

É importante salientar que alguns pequenos passos já foram dados e que nesse longo caminho temos ainda passos longos a dar. Devemos perceber a relevância dos que se importaram em tentar estruturar o turismo para os futuros profissionais, que ainda não tinham ao menos um rosto. Pessoas que enfrentaram ditaduras e sofreram críticas ideológicas e inclusive pessoais para preparar o terreno para os que ainda estavam por vir. Na entrevista foi dada uma informação imprecisa de que a ABBTUR foi criada em 1994, junto com a primeira turma de Turismo de Guarapari; porém, essa é a realidade da seccional do Espírito Santo. Antes disso, pessoas já batalhavam para melhorar nossa condição profissional, quando, de forma democrática e enfrentando fortes oposições (já foi citada inclusive a ditadura), foi criada a ABBTUR seccional de São Paulo em 14 de Novembro de 1981, em prol da união da categoria. A partir daí foram criadas mais de 23 seccionais, representadas nacionalmente pela do Mato Grosso do Sul.

A principal premissa da ABBTUR atualmente, na qual estudantes e profissionais podem colaborar, consiste na efetivação do Conselho Nacional de Ética e, conseqüentemente, a criação das Comissões Estaduais de Ética, só possível depois da criação do código de ética do bacharel em Turismo, datado em 29 de maio de 1999. O código de ética profissional tem importância na realidade histórica brasileira como um mecanismo de defesa da sociedade e da profissão, em defesa dos interesses individuais e coletivos dos operários e trabalhadores de vários outros setores, algo que deveria ser um movimento natural também da nossa profissão como explicita João dos Santos Filho, Turismólogo, Sociólogo, que fez parte da criação da ABBTUR /SP e que possui importantes contribuições críticas para o desenvolvimento da atividade em forma de artigos, sendo, ao meu ver, indispensável referência acadêmica. O código Nacional de Ética, que visa criar normativas para a conduta do profissional atuante, faz parte dos próximos e importantes passos a ser dado para fortalecer nossa profissão.

A principal finalidade da criação da ABBTUR é a de organização sindical do setor, e surgiu com a necessidade de exigirmos e defendermos nossos direitos como profissionais, estarmos agregados aos direitos trabalhistas, fiscalizar e acompanhar o exercício da profissão e impedir que nosso campo de trabalho seja invadido por profissionais de outras áreas ou aventureiros do turismo. O principio básico para a nossa atuação é o respeito ao ambiente e à natureza e o desenvolvimento da sociedade, atentos a sua capacidade de gerar tributos e superávit, ou seja, o interesse econômico. Devemos estar cientes que o interesse econômico deve ser tratado como principal conseqüência e não como fator principal, pois visando primeiramente o homem (visão humanista) o turismo será tratado de forma holística, abrangendo mais variantes.
O bom funcionamento do Trade, baseado nos princípios sociais, éticos e ecológicos, depende da capacidade estrutural e da inter-relação entre as organizações política-sindical do turismo, em conjunto com órgãos oficiais e iniciativas privadas. Porém, acredito, baseado nas antigas políticas de planejamento turístico, que grande parte dos discursos e projetos para fomentação do turismo, principalmente por parte dos órgãos públicos e oficiais, tendem a transformar-se em pura utopia na hora de sua efetivação. O órgão representante oficial da atividade turística em território brasileiro, a EMBRATUR, se contradiz ao reconhecer o turismo como principal atividade para o desenvolvimento econômico do país, ao mesmo tempo em que dificulta o reconhecimento profissional das pessoas mais aptas para o planejamento saudável da atividade. E tudo isso devido ao fato de que os cargos de importância são dados a políticos que trabalham o turismo baseado-se em dados estatísticos, que apresentam uma realidade supérflua, mascarada pelo senso comum e que atingem resultados de interesses próprios, totalmente ufano, cedendo aos profissionais formados apenas cargos técnicos de caráter empírico, que limitam o profissional. Este tipo de organização visa o lucro, sem se importar com a estruturação da profissão ou com a capacidade do profissional formado.

Se não nos preocuparmos com nossos direitos não há quem vá se preocupar por nós, estudantes e formados em turismo. Devemos incentivar a organização política sindical para o bem de nossa profissão, e a academia tem importante papel na formação do aluno crítico politizado formador de opinião. As instituições devem prezar a qualidade de seu ensino e apoiar estudos científicos. Acho interessante o estudo das questões epistemológica que procuram descobrir o que envolve a produção do saber turístico, pois são importantes na criação de argumentos científicos embativos ideologicamente aos discursos dos que defendem o tecnicismo e o empirismo ou os profissionais de áreas de atuação saturada, que vêem no turismo uma nova oportunidade de atuação. Os professores devem ir além da sala de aula, travando contato e supervisionando as ações dos alunos, sempre apresentando material novo e incitando questões diferentes e polêmicas em forma de debate. Não devemos aceitar como realidade o que nos é imposto como bom e certo para o turismo, com quatro anos de estudos somos passíveis de opinião própria. Vocês sabem em que situação foi criada a Embratur e com qual finalidade? Pesquisar, ler, informar-se e questionar são grandes valores principalmente enquanto acadêmico.

A seccional capixaba da ABBTUR já se destaca entre as nacionais e tem imposto sua posição de importância perante os órgãos públicos, que tem cooperado em questões que envolvem o profissional e estudante de turismo. Projetos importantes estão sendo criados e estudados, como, por exemplo, um concurso público para turismólogo para a prefeitura de Vitória e o arquivamento de currículos para encaminhamento de alunos a estágios, apenas para o pessoal cadastrado. Além de poder participar dos serviços, quem é cadastrado pode ganhar descontos em diversos segmentos do turismo como na compra de livros, na participação de eventos, viagens entre outros. É de nosso interesse conhecermos a nossa seccional e estar atentas aos projetos por ela criados.

Vai muita além da regulamentação profissional a função da ABBTUR. A organização sindical trará espaço no mercado, e os profissionais aptos a atuar nele têm a ABBTUR como órgão de defesa, quando acharem que foram denegridos profissionalmente, ou até de punição quando exercerem a profissão fora dos padrões exigidos em consenso democrático, baseado em estudos científicos. Não vamos deixar que nos despolitizem, nos rebaixem e que nos tratem como bonecos manipuláveis. Sabemos ao que viemos.

Autor:
Felipe Ramaldes Corrêa
Faculdade Estácio de Sá de Vitória

 

 

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