Os Passos de Anchieta : Turismo e Religião no Litoral do Espírito Santo - Out/02

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RESUMO

O artigo reflete acerca do desenvolvimento do turismo nos espaços mítico-religiosos, discutindo a relação entre o turismo e a religião, as tipologias aplicadas aos turistas, peregrinos e outros frequentadores de santuários de fluxo. Analisa o evento denominado Os Passos de Anchieta que ocorre anualmente no litoral do Espírito Santo, discutindo suas características marcantes e como o turismo pode recriar os santuários para o desenvolvimento deste que é um dos fenômenos sociais mais marcantes da pós-modernidade.

O turismo de massa produz um comportamento degradante tanto para os turistas como para a comunidade, um exotismo superficial que limita qualquer contato verdadeiro com a cultura do país anfitrião” (João Paulo II)

O turismo vem se tornando um dos mais expressivos fenômenos das sociedades pós-industriais. Visto como uma prática social, é capaz de causar fortes repercussões sobre os ambientes econômico, sociocultural e físico, muitas vezes negativamente. Apesar disto tem sido por muitos defendido devido principalmente ao seu inegável poder de geração de empregos e renda.

As manifestações religiosas são um campo de estudo muito explorados por algumas ciências como a social, a antropologia e a geografia entre outras, apesar disto, abordagens com relação ao turismo são extremamente escassas.

O presente estudo pretende refletir acerca do desenvolvimento do turismo nos espaços mítico-religiosos à partir de elementos relacionados a turismo e religião presentes no evento denominado Os Passos de Anchieta: um caminho de fé, realizado anualmente no litoral do Espírito Santo e que vem a cada ano atraindo um número maior de participantes.

TURISMO E RELIGIÃO: DESLOCAMENTOS EM UM MUNDO SAGRADO

A apropriação de elementos da religião, principalmente os santuários[1], como recursos para o desenvolvimento da atividade turística é passível de reflexão, apesar da complexidade de se envolver componentes aparentemente antagônicos como religiosidade e lazer.

Para que o fenômeno turístico ocorra é imprescindível a presença da motivação, geralmente vinculada às características culturais marcantes nas sociedades, entre elas a religiosidade.

Atualmente, com cada vez mais pessoas residindo em cidades, as crises financeiras, políticas, desemprego, redução da renda, acabam por comprovar a necessidade de renovar mitos e ritos religiosos. Para este momento de religiosidade e lazer, as pessoas acabam buscando um espaço alternativo, longe de seu cotidiano, quebrando as barreiras de sua consciência limitada aos hábitos cíclicos do dia a dia, constituindo-se assim como um momento múltiplo de fuga e re-ligação.

A palavra religião vem do latim religio, formada pelo prefixo re (outra vez, de novo) e o verbo ligare (ligar, unir, vincular), e segundo Aurélio (1977) é “a crença na existência duma força ou forças sobrenaturais”, esta crença se apoia em mitos[2] para tornar os lugares sagrados, Joseph Campbell (1991: 49) diz serem os mitos “produtos da imaginação humana e, suas imagens, em conseqüência, embora oriundas do mundo material e de sua suposta história, são, como os sonhos, revelações das mais profundas esperanças, crenças, desejos e temores, potencialidades e conflitos da vontade humana.”.

O turismo  religioso pode ser compreendido através da definição formulada por Andrade apud Medeiros (1998 :163) que consiste no “conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a receptivas que expressam sentimentos místicos ou suscintam a fé.”. Demandando assim um conjunto de serviços indispensáveis que permitiriam ao cliente o acesso e a permanência em um lugar sagrado, seja um templo, uma via ou outro lugar.

A  motivaçãco religiosa tem levado milhões de pessoas em todo o mundo a se movimentar num mundo sagrado, estas viagens que compreendem o deslocamento desde a saída da residência ao outro lugar frequentemente envolvem o percurso de longas distâncias e por vários meios de transporte, podendo ser executada de forma voluntária e cuja motivação principal é religiosa, são comumente chamadas de peregrinações e apresentam uma quebra da rotina diária dos participantes, imprimindo a esses uma certa libertação do mundo estruturado.

Refletindo sobre  participação em eventos sociais Eduardo Maia (1999) coloca que “ participação traduz, em efeito, um movimento intencional de ir ao encontro do outro, com vistas ao alcance de uma meta comum, pressupondo-se, ainda, a reciprocidade de tal movimento.”.

O elemento importante da peregrinação é deixar para tráz o mundo profano e se aproximar do sagrado, e que, muitas vezes inclui atos de sacrifício principalmente físicos, e diferente de outras modalidades de viagem os participantes aceitam tais sacrifícios que podem ser entendidos como atos de purificação ou como parte da natureza da peregrinação. Abordando sacrifícios, Carlos Maia (1999: 198) reflete acerca destes em realizações de festas populares no Brasil colocando que “evidentemente não falamos em sacrifícios aos moldes de rituais funéreos pagãos primitivos, mas sim enquanto uma renúncia que o folião contemporâneo faz do suprimento de necessidades em prol de um prazer extraordinário.”.

A grande dificuldade de se refletir acerca de um turismo religioso está na relação entre compromisso e prazer, Christian Oliveira (2000: 52) aponta que “O grande nó desta modalidade de viagem encontra-se nas estruturas de conceituação que antepõe a ´perspectiva da necessidade´ enraizada na vivência religiosa contra a ´perspectiva da liberdade´ possibilitada pelo fazer (lazer) do turismo.

Mesmo hoje, as peregrinações ainda possuem uma imagem de uma viagem espiritual onde a motivação é encontrar os lugares sagrados, lugares onde a manifestação de uma divindade[3] tenha sido relatada, lugares onde pessoas entituladas santas tenham vivido, mesmo não oficialmente, ou que seja reconhecido por instituições religiosas a presença do sobrenatural.

 
PEREGRINOS, TURISTAS RELIGIOSOS E OUTRAS TIPOLOGIAS

A palavra peregrino, em latim peregrinus significa literalmente estrangeiro que viaja por terras distantes. As emoções que orientam o caminho e a vivência deste trajeto são inerentes à peregrinação, um culto público e oficial que se estende até o templo, lugar sagrado ou percurso sagrado, e representam um extraordinário momento de convivência social.

O peregrino é um agente singular e não permanente, pode ser um alto executivo de uma multinacional, pedreiro, operário, jardineiro, atleta e até devoto, que num momento específico, fora de sua rotina diária, transforma-se.

O peregrino é aquele que associa a caminhada à busca de satisfação e conforto espiritual, acompanhada na maioria das vezes de sofrimento físico, que representa a limpeza do corpo recipiente para a ocupação de uma força sobrenatural. É possível identificar o peregrino como um agente consumidor do sagrado enquanto o turista um cliente usuário da religião.

 O turista difere do peregrino principalmente no que se refere à motivação. O peregrino é movido pela busca da satisfação e conforto espiritual, com a esperança de aumentar sua santidade pessoal, obtenção de bençãos e curas especiais, enquanto o turista  busca o bem estar, muitas vezes a preguiça, a satisfação de lazer, esta motivação recai no desejo de escapar das pressões da sociedade, mesmo que temporariamente.

Em seu estudo entitulado O Caminho de Santiago, Smith apud Rosendahl (1999: 96) observou que muitos visitantes de Santiago de Compostela, durante um prolongado rito de passagem tiveram questionamentos a cerca do significado espiritual do mundo, durante o trajeto eles se transformavam em peregrinos. Este e outros aspectos levaram Smith a sugerir uma tipologia para estes visitantes de lugares sagrados: o piedoso-peregrino, o peregrino-devoto, o peregrino-turista, o turista-secular e o turista-peregrino.

O turista peregrino seria o visitante do lugar sagrado que possui motivações nitidamente de turista, e, a partir da vivência do espaço sagrado é envolvido pelo pensamento mítico. Oliveira (2000) coloca que “são raros os não-crentes que conseguem ficar espiritualmente imune a vibração ritual desencadeada pelas grandes manifestações de fé...”, e que “o turismo vem se tornando um meio seguro para tornar este contato acessível e real.”.

 
ASPECTOS DE UM CAMINHO SAGRADO

 Um litoral de costumeiros naufrágios e guerras corpo a corpo. De cobras peçonhentas que se esgueiravam para dentro das botas e de onças que, à noite, rondavam famintas as choças de palha das aldeias. De índios comedores de carne humana e homens de poucas leis que sangravam pelas bandeiras inimigas de Portugal e da França. Foi nessa terra de aventuras e riscos que um adolescente magrinho de olhos azuis criado sob mimos e cuidados em Tenerife, no domínio Espanhol das Ilhas Canárias, pisou pela primeira vez há mais de 400 anos. Seu nome era José. Sua missão: caçar almas e servir a Deus. ( Liliane Alves )

O padre José de Anchieta era espanhol, nascido nas ilhas Canárias, após estudar em Portugal, Anchieta ingressou na Companhia de Jesus, vindo para o Brasil na expedição do segundo governador geral, Duarte da Costa.

O Padre José de Anchieta é uma importante referência não só para religião mas também para a arte e a cultura de nossa história. O Apóstolo do Brasil também foi poeta, dramaturgo, teatrólogo e é considerado o fundador da literatura brasileira.

José, por tradição, era destinado a ser soldado. Mas seu pai, vendo o menino acanhado e versejando poesias em latim já aos 9 anos de idade, reconheceu que ele não manifestava a mínima aptidão para a carreira militar. Decidiu matriculá-lo no Colégio das Artes da Companhia de Jesus em Portugal. A disciplina e a noção do dever dos jesuítas. Inácio de Loyola, o fundador da Companhia, era, ele sim, um militar, e deveria bastar à formação do garoto. Não sendo soldado de armas, José de Anchieta seria soldado da fé.

O garoto não frustraria os anseios de seu pai. Pregando em terras distantes, onde os relatos de seus milagres se multiplicariam, ele ainda pode vir a ser canonizado. Seria a culminação de um percurso religioso que começou aos 14 anos, quando foi para o Colégio de Coimbra. Tinha tanta facilidade em compor versos em latim quantos problemas por sua fraca saúde, que necessitava sempre de cuidados. Alguns biógrafos dizem que sofria de dores na coluna vertebral e que, ao tornar-se noviço, já andava arqueado. Outros garantem que uma escada da biblioteca do colégio caiu-lhe nas costas e, com o correr dos anos, as consequências do acidente o deixaram quase corcunda.

Apesar de ter sido beatificado pela igreja católica somente em 1988, Anchieta foi considerado santo ainda em vida. São numerosos os relatos de testemunhos das manifestações do sagrado em sua presença, incluindo suas famosas levitações. Afirmam também que multiplicou alimentos, que comandava os peixes do mar, os índios o chamavam de o senhor da pesca ou mesmo que podia conter tempestades.

Em 1566 ordenou-se sacerdote e fundou as Aldeias de Rerigtiba (Atual Cidade de Anchieta) e Guarapari. Em 1593 foi nomeado Superior do Colégio de São Tiago em Vitória, nesse período percorria habitualmente a pé, já que o problema na coluna impedia-lhe a montaria, o trecho entre Rerigtiba e o Colégio em Vitória,  o fazia com uma determinação que lhe valeu os nomes de Abará-bebe (padre voador) e Carai-bebe (homem de asas) por, lépido, adiantar-se na caminhada mesmo aos mais vigorosos índios[4]. E nesse percurso encontram-se marcos de feitos extraordinários relatados que lhe conferem uma dimensão mítica. Dizem que anchieta, quando acompanhado de grupos sedentos, simplesmente rezava e enfiava seu cajado na terra seca, e que logo começava a brotar a mais pura e santa água.

Em 1998, um grupo de pessoas, à partir de participações no Caminho de Santiago de Compostela, identificaram na importância desta via sagrada e no mito da viagem ao local sagrado, recursos para para o desenvolvimento de um evento periódico com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento turístico da região. Formaram então a ABAPA - Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta, e lançou-se o evento anual denominado Os Passos de Anchieta: um caminho de fé.

Os Passos de Anchieta se apropria de uma rota sagrada, inspirado no caminho de Santiago de Compostela, onde a Catedral de Santiago, localizada no local da suposta descoberta dos restos mortais do apóstolo de cristo, corresponde a um santuário metropolitano e se coloca como ponto central de vários caminhos de peregrinações, Zeny Rosendahl (1998) coloca que “os caminhos de acesso ao sagrado não são necessariamente rotas de peregrinos, porque em relação a muitos santuários católicos existem pontos sagrados, fixados ao longo do caminho do santuário. Esses pontos fixos exigem rituais com paradas em cada um deles. Como por exemplo, tem-se a Via-Crucis, ritual que significa percorrer o caminho do Calvário.”

O evento, consiste na re-leitura da rota percorrida regularmente pelo Padre Anchieta nos seus últimos dez anos de vida entre o Colégio de São Tiago em Vitória hoje sede do Governo Estadual e a aldeia de Rerigtiba, atual cidade de Anchieta. O santuário é representado aqui pela via sagrada, que contém as marcas físicas da passagem do beato e representam feitos extraordinários contados e re-contados por gerações, associada a um tempo sagrado[5]. Segundo Christian Oliveira (2000: 53) “é como se a fé e a religião consciente - praticada de forma individual ou coletiva– dependesse de um dos fins de semana, dos feriados e férias para se praticar aquela condição de retiro momentâneo, mas suficiente para a renovação espiritual”, e Eliade (1959: 334) “esse tempo mítico ou sagrado é qualitativamente diferente do tempo profano, na contínua e irreversível duração na qual está inserida nossa existência cotidiana e dessacralizada.”.

É importante compreender que esta via sagrada não era reconhecida como tal, era como um recurso adormecido, que foi redescoberto e adaptado com intenção especificamente turística.

Os Passos de Anchieta pode ser entendido como um ritual que compreende a visita a uma via sagrada num determinado tempo sagrado, um santuário de fluxo, e não uma rota de peregrinação em busca de um templo ou local sagrado. Inicia-se no centro antigo de Vitória, com missa celebrada na Catedral Metropolitana, onde os turistas e peregrinos recebem as bençãos para iniciar a dura empreitada rumo a purificação e encontro com o sagrado. Em 1998 foram cerca de 400, em 2001 foram mais de 4000 participantes do evento que realiza-se sempre no último final de semana antes do dia 9 de junho, dia da morte do beato, resaltando-se assim de acordo com Christian Oliveira (2000) “a importância de se buscar naquele momento, uma comemoração, enquanto memorização coletiva  de um tempo mítico e cíclico.”.

Esta temporalidade do evento é marcada pela compreensão do movimento historical, em que se releva o caráter da antiga tradição; ou seja, há uma certa preocupação por parte dos participantes em preservar um legado de crenças, hábitos, elementos alegóricos como o uso do cajado, etc. O ferroviário Rivoni Castilho e o técnico agrícola Henrique Rangel foram para a caminhada vestidos de índio e padre Anchieta respectivamente. Ainda outras tradições são inventadas em face a novas situações, o que não deve ser compreendido como uma ruptura radical com o passado, mas sim em termos de uma certa continuidade, ainda que artificial. Cerca de 100 cavaleiros do grupo Cavalgadas de Anchieta carregavam bandeiras do Brasil e do Espírito Santo, dentre outras.

Ao se observar entre várias motivações dos participantes do evento é possivel identificar um objetivo comum, como diz Pastro apud Oliveira (2000) “a verdadeira peregrinação é uma viagem ao centro, uma viagem interior em busca do EU ”, nitidamente diferente de visões mais clássicas que afirmam ser o peregrino um praticante de um credo e de um único padrão de religiosidade.

Em Os Passos de Anchieta, percebe-se que o atrativo aparente das tradições, dos marcos arquitetônicos histórico-culturais, da vivência social do caminho, das áreas naturais, etc., não passam de pretextos para esta busca interior a procura do EU. Em suas individualidades, os participantes a partir do momento que reconhecem naquele lugar um santuário, vivenciam, sendo crentes ou não, uma identidade toda especial, singular. Devoto, crente ou ateu, o participante do evento estabelece um contato com algo externo ou além de seu cotidiano.

Outro aspecto que merece atenção é a liberdade de culto, que devido a não existência de uma organização vinculada a uma instituição religiosa, permite o convívio pacífico de muitos elementos sagrados e profanos, apesar de uma aparente busca pela purificação espiritual.

São três dias de caminhada, cumpridos com duas paradas noturnas, a primeira em Ponta da Fruta, município de Vila Velha e a segunda no Balneário de Guarapari. Nas paradas o participante pode apreciar a culinária e o folclore capixaba, além das festas de integração que acontecem à noite. Como em uma dança entre Deus e o Diabo, o sagrado e o profano andam de mãos dadas no trajeto.

Esta relação pacífica entre o sagrado e o profano nos proporciona a necessidade de compreender em até que grau de desvinculação da ordem normal das coisas o participante atinge, já que  enquanto metáfora de busca interior, as peregrinações realizam-se como fuga apenas aparente. Na medida que reconhecemos, nos espaços de cerimoniais religiosos, lugares mais e menos profanos.”. (OLIVEIRA, 2000).

É uma relação mais ligada ao processo de aculturação urbana vivênciada pela grande maioria dos participantes, estes por sua vez acabam por demandar o oferecimento de diversos serviços como por exemplo: hospedágem, alimentação, transportes, lazer, comércio de apoio etc. Desta forma há uma nítida reprodução das exigências urbanas na via sagrada principalmente quando associada ao tempo sagrado, isto é, o período da realização do evento.

Nessa temporalidade sazonal, intimamente relacionada ao turismo e ao santuário de fluxo, observa-se mudanças de costumes nas populações residentes dos núcleos populacionais pelo caminho. Residentes se organizam para alugar quartos, oferecer refeições, banho, e outros serviços, abrindo suas casas para o outro, é como se naquele momento a rua vira-se casa e a casa  torna-se rua, num extraordinário momento de convivência social.

No balneário de Ponta da Fruta, município de Vila Velha, hoteleiros afirmam que Os Pssos de Anchieta foi decisivo no processo de aumento da oferta de leitos, apesar de só serem demandados por este em um dia no ano. Sobre estas exigências, Christian Oliveira (1998) observa que “ ...este romeiro em sua prática peregrina, consciente ou inconscientemente, vai reproduzindo suas exigências urbanas no espaço de sua devoção. Afinar estas exigências como demandas e empreendimentos turísticos é uma questão de tempo e correlação de interesses.”, “ ... a pós-modernidade passa a oferecer aos cidadãos consumidores uma variedade de meios para alimentar sua busca existencial.”.

Na quarta edição deste evento que ocorreu entre 1 e 3 de junho de 2001, foram cerca de 4000 turistas e peregrinos que participaram da empreitada. Apesar do cansaço físico, os participantes dizem contar com forças externas para vencer o duro caminho, como diz Henrique Oliveira, 39, descalço, com bolhas nos pés e lágrimas nos olhos, contemplando a igreja: “Foi duro, mas as energias do caminho me ajudaram. Aqui começa um sonho.”.

 
CONSIDERAÇÕES FINAIS

 A pós-modernidade exige uma nova relação entre a religião e o turismo, a velocidade da informação, a multiplicação dos modelos de religião e cultos, o valor da individualidade, nos arguem em como poderemos relacionar o lazer com a espiritualidade.

Os Passos de Anchieta nos revela uma forma de como o turismo pode de apropriar dos santuários como recurso para o desenvolvimento desta atividade. Sobre desta organização não eclesiástica do evento Christian Oliveira (2000) diz que “a maior parte das visitas a santuários tradicionais do catolicismo se dá independentemente das instituições eclesiais  estabelecidas pelos membros do clero.”.  Percebe-se que os peregrinos e turistas demandam uma organização de tempo, infra-estruturas e serviços, muitas vezes diferentes, mas que geralmente são fornecidos pelo mercado e não por organizações religiosas.

É necessário que os planejadores reflitam acerca dos equipamentos que são solicitados pelos turistas e peregrino do santuário de fluxo a fim de melhor organizar o espaço a ser constituído, não se esquecendo das diferenças existentes entre os tipos de participantes.

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[1] Do latim sanctorium, um “lugar santo”, marcado pela religião, com poder de sacralizar, divinizar, re-ligar seus visitantes.
[2]  De mythos, uma fala, um relato ou uma narrativa, cujo tema principal é a origem ( dos homens, dos deuses, das relações entre homens e deuses, etc.).
[3] Ser sobrenatural, divino, um Deus.
[4] Dizem que Anchieta percorria o percurso de aproximanadente 100 Km. a pé, e o percorria no período de apenas um dia.
[5] Os Passos de Anchieta ocorre todos os anos à véspera do aniversário de morte do beato.
 

Autor:
Jefferson L. Gazoni
Professor da Instutuição de Ensino Superior FAVI, Secretário de Turismo e Desporto de Anchieta-ES, Consultor Autônomo em planejamento participativo e Moderador PNMT/EMBRATUR, é graduado em turismo pela AESG-ES e Mestrando em Turismo Ambiental e Cultural: planejamento e gestão pela UNIBERO-SP.

 

 

 

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