Águas de Lastro e Desequilíbrio Ambiental: o Turismo tem culpa? - Fev/04

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Quando se fala que praticamente não existem mais fronteiras entre as sociedades contemporâneas podemos entender por dois lados:

O primeiro é o virtual, indiscutível, a internet realmente quebra qualquer possibilidade de isolamento (a não ser, é claro que o próprio indivíduo resolva se enclausurar), fazendo com que milhares de pessoas possam se comunicar em tempo real e trocar informações e conhecimentos a milhares de centenas de quilômetros.

O segundo é o real, com o advento dos transportes, as distâncias "encurtaram" e a possibilidade de em algumas horas se deslocar de um continente para o outro são perfeitamente plausíveis.

Este é o ponto: transportes. Apesar de ser uma revolução incontestável na história da humanidade, e particularmente no turismo, creio que merece ser analisado sob um foco mais detalhado. Partindo do pressuposto de que toda ação gera uma reação, quais seriam, por exemplo, as implicações de um cruzeiro marítimo?

Ao se falar em cruzeiros remete-se à idéia de luxo, conforto, prazer, férias, enfim, toda aquela intangibilidade, lazer e perspectivas preconizadas pela teoria do turismo, porém é preciso ver um pouco mais além. Ao analisar esta questão, acabei chegando num ponto que preocupa diversos engenheiros navais ao redor do mundo, as chamadas "Águas de Lastro".

Lastro é definido como qualquer volume sólido ou líquido colocado em um navio a fim de garantir sua estabilidade e condições de flutuação. O termo "água de lastro" refere-se, então, à água coletada nas baías, estuários e oceanos, destinada a facilitar a tarefa de carga e descarga. Quando um navio está descarregado, seus tanques recebem água de lastro para manter sua estabilidade, balanço e integridade estrutural. Quando ele é carregado, a água é lançada ao mar.

É aí que esta o "X" da questão. Retirar água de um local do planeta (e conseqüentemente as milhares de vidas contidas nesta) e lançar em outro.

De forma imperceptível, as águas de lastro dos navios de turismo proporcionam desequilíbrios ecológicos, na medida em que carregam consigo milhares de seres microscópicos , em sua maioria endêmicos, que irão desarmonizar os ecossistemas receptores dessas águas, afetando de forma prejudicial a comunidade ali instalada.

Caso notório foi o do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), um molusco bivalve originário dos rios asiáticos, mais particularmente da China. Esses seres são encontrados, geralmente, fixados a substratos duros, naturais ou artificiais, dos rios asiáticos. Esse organismo de água doce e salobra foi introduzido no Rio da Prata, Argentina, em 1991, avançando pelos rios Paraná e Paraguai, tendo se estabelecido no Pantanal.

O desembarque silencioso e discreto do mexilhão dourado já provoca impactos sócio-econômicos significativos para a economia e parte da população, uma vez que entope os filtros protetores das companhias de abastecimento de água potável, exigindo manutenções mais freqüentes; impedem o funcionamento normal das turbinas da Usina de Itaipu, com custos de quase US$ 1 milhão a cada dia de paralisação desnecessária do sistema; forçam mudanças nas práticas de pesca de populações tradicionais; e prejudicam o sistema de refrigeração de pequenas embarcações, fundindo motores.

A questão é inevitável, o turismo existe, bem como existe a necessidade de transportes marítimos, que conseqüentemente levam a água de lastro carregadas de organismos estranhos. Desta forma, temos o turismo como colaborador, mesmo que de forma involuntária, para o desequilíbrio ambiental em diversas áreas ao redor do globo.

Autor:
Itamar Dias e Cordeiro
 

 

 

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