Funchal, passeio ou tortura? - Mai/03

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Passei a última noite tentando achar um título que melhor expressasse os momentos vividos a bordo. Um deles poderia ser “férias frustradas”, “amargo regresso” ou quem sabe “cavalo de tróia” mas, graças a Deus, não chegou a ser chamado “titanic” . Eu precisava relatar o que havíamos passado, para que outras pessoas, quando quisessem fazer essa viagem, se preparasse física e psicologicamente tendo um relato realista e não só os floridos textos e imagens  das propagandas enganosas das agências de turismo. Se eu tivesse lido algo parecido com o que estou escrevendo, com certeza, nunca teria embarcado.

Tudo começou quando resolvi presentear minha mãe com uma viagem ao Arquipélago de Fernando de Noronha. Pensava em ir de avião e passarmos belos momentos na ilha. Ela adorou a idéia e começamos a fazer planejamentos. Estando tudo certo, marcamos a data pra o final do ano e começamos uma contagem regressiva para o que seria a realização de um sonho. Já próximo à compra das passagens, fiquei sabendo, quando comentava com amigos sobre a viagem, que havia uma outra forma de chegar à ilha. Navios traziam turistas de todos os continentes para conhecer Noronha e suas belas ilhotas.  Então comecei a pensar nessa possibilidade. De navio seria um atrativo a mais, sem contar que a viagem de avião é um pouco monótona. Comecei a obter informações sobre o navio; as condições de embarque e desembarque, tudo para que pudesse ter a certeza de que seria completamente seguro. Apesar de nunca ter precisado de ninguém para fazer as coisas pra ela, a minha mãe requer alguns cuidados que a idade lhe impõe.
 

Bem, me informei de todas as formas possíveis, junto às agências de turismos, operadoras e pela Internet conseguindo textos e imagens que pudessem traduzir como seria o passeio. Por fim resolvi que seria perfeitamente seguro, afinal não era a primeira vez que um navio fazia essa viagem, e como não encontrei nada que pudesse contrariar minhas expectativas, passei para a fase mais difícil, convencer a motivadora de tal viagem, a minha mãe. Tarefa bastante complicada, já que outras vezes havia feito convite para um passeio de barco, e recebia sempre um não incisivo como resposta. Depois de muito relutar, ela cedeu aos meus argumentos de que, como ela não iria fazer caminhada nas montanhas e nem tão pouco fazer mergulho com máscara em Noronha. O passeio de navio seria uma forma de valorizar a viagem como um todo. Comprei as passagens e marcamos para novembro.

Chegado o dia, fomos a Recife embarcar no navio de nome Funchal. Primeira decepção. A foto que é divulgada nas propagandas não se parecia muito com o navio que estava atracado no porto. Várias camadas de tintas tentavam esconder as verdadeiras condições de um navio que talvez já tenha tido seus tempos de glória. Embarcamos sem saber o que nos aguardava. Após o prático entregar o comando da embarcação ao comandante do Funchal, percebi, logo, nas manobras feitas para sair das proximidades do porto, que o navio não tinha estabilidade. O que mais se ouvia a bordo eram comentários sobre o balanço - queriam saber se isso seria a tônica da viagem. Nesse momento, minha mãe olha pra mim com os olhos esbugalhados. Dava pra ler seu pensamento. Não perdi tempo e reuni ela e suas amigas, todas já com uma certa idade, e justifiquei que o balanço era devido às manobras e que após o seu término tudo ficaria mais calmo. A partir desse momento segurei forte no seu braço para não mais soltar durante todo o tempo que passamos a bordo.

Após algumas horas de viagem, a cena que se via nos corredores do navio era de impressionar: várias pessoas passavam muito mal, algumas já não agüentavam mais o enjoou e começavam a vomitar. Seus rostos estavam esverdeados e com o balanço forte elas eram sacudidas de um lado para outro.

Se minha mãe enjoasse, ela não iria agüentar muito tempo. Os remédios controlados que ela toma, justificavam a minha preocupação.  Caso isso viesse a acontecer, eu já havia pensado na possibilidade de ir até ao comandante e forçá-lo de alguma forma a retornar. Sempre com ela a meu lado e segurando-a, fomos à cabine. A todo o momento ela perguntava se o navio ficaria balançando daquela forma até Noronha, e como sempre, eu tentava confortá-la, mas sabia que aquilo era apenas o começo. E foi assim durante toda a noite. Ao amanhecer, o balanço continuava, mas graças a Deus ela não havia passado mal. No entanto, ninguém havia dormido direito. Os comentários eram justamente sobre a péssima noite. Muitos passageiros ainda continuavam sob a mesma tortura.

Durante o café da manhã dava pra notar nos rostos de todos o sentimento de arrependimento em estar ali. Muitos não conseguiam nem falar direito. E o que é pior, não demorou para que começasse outra sessão coletiva de enjôos. Ninguém entendia porque um navio que se diz de turistas balançava tanto com o mar tão tranqüilo!

Avistamos Fernando de Noronha por volta do meio dia de 29/11/2002. A beleza do arquipélago é tanta que por alguns momentos os passageiros esqueceram que estavam sendo torturados e passaram a esboçar um sorriso no rosto bastante enrugado pela longa noite e um inicio de dia tão tumultuados. Todos acreditávamos que quando o navio ancorasse as coisas se acalmariam e com ele o mal estar a bordo. Essa certeza durou pouco. Apesar do mar estar tranqüilo, os balanços não cessaram. Todos queríamos saber porque continuávamos daquela forma, como se estivéssemos em uma tempestade. As inclinações do navio chegavam a causar uma sensação de que estávamos em uma montanha russa. Essas Inclinações chegavam a ser tão fortes que pratos, copos e talheres caiam das mesas. As pessoas que já andavam com dificuldades, agora não mais se arriscavam  nos corredores, preferiam ficar sentadas e próximas a algum local para se segurarem. Mas mesmo assim os alto-falantes anunciavam o desembarque para as pessoas que assim desejassem. Para isso bastaria obter uma senha e aguardar sua vez.

O que se viu logo após o anúncio foi um corre-corre para desembarcar. Todos queriam sair dali o mais rápido possível. Eu não via a hora de estar em terra com minha mãe. Assim, foram se formando os grupos para desembarque e o que mais se comentava era o pernoite em Noronha e, talvez, até voltar de avião, diante das condições do navio. Eu já estava pensando nessa possibilidade. Não queria que minha mãe passasse mais nenhum segundo ali. AÍ, para decepção de todos, nos foram apresentadas às condições de desembarque. Havia um pedaço de madeira boiando lá fora e uma escada que a cada balanço do navio soltava um pino. Essas duas peças constituíam o que a tripulação chamava de plataforma de desembarque. As condições eram tão ridículas que até os próprios marinheiros que tentavam se equilibrar em cima da plataforma corriam risco de vida. Vendo aquilo, todos os passageiros “voltaram atrás” e decidiram ficar a bordo. Era melhor continuar passando dificuldades, mas voltar com vida para casa. Eu nunca iria deixar minha mãe desembarcar naquele troço, mesmo que ela quisesse. O que não foi o caso.

A precária escada ficava presa ao navio e com o balanço ela subia aproximadamente cinco metros. Ao descer ela golpeava o pedaço de madeira. Com os sucessivos golpes, alguns buracos foram aparecendo e as condições da “plataforma” ficando cada vez piores. Mas, mesmo assim um grupo de aventureiros resolveu enfrentar o dinossauro, nome carinhosamente atribuído à escada devido ao barulho que ela fazia. O que não dava pra entender era porque, apesar do mar calmo o navio balançava tanto; porque as condições de desembarque eram tão precárias se essa não era a primeira vez que Noronha recebia um navio? A resposta para essas e outras perguntas só viria mais tarde.

Todos nós ficamos na esperança de que aquilo que nos fora apresentado como plataforma de desembarque tivesse sido, na verdade, uma improvisação temporária e que, no dia seguinte, as verdadeiras condições, uma forma segura de embarque e desembarque dos passageiros, substituísse a improvisação.

E assim fomos ficando cada vez mais apreensivos não só com o balanço, que aumentava cada vez mais, mais também com a possibilidade de voltarmos sem pisar na ilha.

No último dia em Noronha acordamos, ou melhor, levantamos bem cedo. Todos estavam quebrados, afinal duas noites sem dormir e enjoados deixam qualquer um derrubado, mas mesmo assim restava um sorriso amarelo no rosto e junto com ele uma expectativa imensa de como seria o desembarque. Já havíamos tomado café e estávamos prontos para ir à ilha. Dinheiro no bolso para as lembrancinhas, o corpo ensopado de protetor solar e máquina para registrar a justificativa de tanto sofrimento. O desembarque estava previsto para logo após o café da manhã. De senha nas mãos fomos para a fila. Pra nossa surpresa e decepção as condições de desembarque eram as mesmas do dia anterior. A mesma plataforma ridícula, e o mesmo velho dinossauro. Assim que todos tomaram conhecimento disso, um tumulto começou a se formar. Todos pediam mais segurança. Ninguém queria se expor ao perigo de desembarcar daquela forma. A maioria dos passageiros já não tinha idade e nem agilidade para tal aventura.

Depois de algum tumulto, os alto-falantes anunciavam que o desembarque seria suspenso temporariamente para que o comandante pudesse fazer uma manobra na embarcação a fim de melhorar um pouco as condições de desembarque. Ninguém entendia o que ele estava tentando fazer. Todos sabiam que o navio não tinha as mínimas condições para desembarque. Não era um manobra que iria resolver essa situação. Mas, mesmo assim ela foi executada. Durante a manobra, a plataforma que estava presa ao navio foi seriamente avariada, tendo sua parte superior destroçada e um dos tonéis de flutuação perfurado.  Ou seja, a plataforma teria sido literalmente atropelada pelo navio e estava agora de ponta-cabeça com condições ainda piores. Agora é que tínhamos a certeza de que Noronha, pelo menos para nós, seria resumida a um amontoado de pedras vistas de longe.

Já passavam das 11 horas quando a plataforma foi desemborcada, após várias tentativas. Mesmo que todos os problemas fossem resolvidos, não haveria mais tempo para os passeios. O comandante reuniu num salão todos os passageiros para comunicar que não iria cometer o mesmo erro do dia anterior, quando permitiu o desembarque de algumas pessoas. Todos sabiam, mesmo que ele permitisse o desembarque, ninguém seria doido o suficiente em arriscar suas vidas e ficar para sempre na ilha.

Os familiares das pessoas que desembarcaram no dia anterior, queriam saber se elas retornariam de avião. Mais um erro do comandante. A contragosto dos próprios passageiros o embarque foi efetuado. As pessoas protestavam de todas as formas. Uns xingavam, outro diziam que processariam a companhia responsável. Havia até quem não conseguisse conter o choro.

Fomos para o quarto e por um longo período, ficamos calados, sem saber o que dizer. Depois de tantas horas de sofrimento, voltar sem conhecer a ilha era demais!  O sentimento de frustração era enorme. Pessoas, que nunca tinham colocado os pés em um barco, estavam praticamente como prisioneiros há três dias em um navio sem a devida segurança, segurança esta vendida junto com o pacote de viagem. Agora só restavam arrependimentos e lamentações. De nada adiantavam os protestos.

Passamos mais uma noite a bordo com todos os problemas das outras noites e levando na bagagem um desgosto enorme em ter conhecido o Funchal e a sua tripulação.

Por: Severino Ramos Cavalcanti Neto

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