Viagem a Cuba - Out/00

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Se o melhor da festa é se preparar para ela, misto de ansiedade e imaginação, ir à Cuba é algo parecido.  

Busquei reportagens sobre a Ilha e não encontrei quase nada e tive de recorrer ao Guia Turístico da Berlitz em espanhol e as dicas foram ótimas, mas nada que se compare com a estadia por lá. Esqueça toda sorte de coisas sobre o socialismo que você ouviu falar, ou vai ficar uns três dias tentando organizar na sua cabeça o que você estará vendo por lá.

Aeromoças usavam sandálias havaianas e fumavam charutos - o avião é arrendado da Air France e o serviço de bordo foi excelente, além da simpatia cubana.

É a passagem mais barata e não passei pelo desconforto que meus colegas (um deles o da  piada  da  aeromoça  com o charuto) enfrentaram pela linha panamenha.  Ficaram parados no Panamá pela necessidade de consertar o avião sem as atenções devidas aos passajeiros que reclamaram bastante para serem atendidos em relação à refeição e hospedagem.  

Tive pouco tempo, pois fui para um seminário de Geografia Física  na Universidade de Havana e me hospedei no Hotel Colina, que fica em frente (veja imagem abaixo tirada da janela do quarto).  A confraternização da abertura foi ótima, com rum cubano farto e eu e os professores doutores Jose Mateo (à esquerda) e Jurandir Ross (à direita) sorrindo ...

Como só tinha dois dias livres para passear,  após chegar ao hotel  em Havana, fui andar pelo Malecón (uma via litorânea com seis pistas), depois de um sorvete na Copélia. Escolhi para cada dia livre um passeio que valeu a pena: a Ilha de Cayo Largo e Pinar del Rio. O passeio para Cayo Largo ficou em 144 dólares com tudo incluído: viagem de avião (por incrível que pareça, num Douglas DC3 !), passeio de barco com quatro paradas, almoço e transporte do hotel para o aeroporto e vice-versa (aceitaram o meu cartão Visa). As paradas foram para um coquetel simples, mergulho, banho de mar num banco de areia e na ilha dos Iguanas, e somente depois do almoço (buffet ótimo) é que fui para a praia da Sirena tomar um banho de mar debaixo de um sol bem forte. Imperdível, pois o azul e verde do mar é realmente da cor dos cartões postais, pois a areia de de origem calcárea, bem fininha e macia (O Cláudio, meu marido, na Praia das Sereiras está na foto). Na ilha dos Iguana, dá-se pão para os bichões bem nutridos e mansos.

O passeio até a cidade de Pinar del Rio dá uma boa imagem de uma região agrícola cubana, pois o trajeto é feito de ônibus (brasileiro, BUSSCAR) e a guia turística era fluente nos idiomais espanhol, francês e alemão. Além da visita à uma fábrica de charutos (e a região produz fumo de boa qualidade) e da aguardente Guayabita, seguimos para um belvedere para ver o vale lindíssimo (relevo de calcário, o "karst) e depois para Viñales onde se está o Mural da Pré-história (veja a imagem abaixo), um paredão natural pintado pelos camponeses com a evolução da natureza desde uma amonita (concha fóssil) até o homem. Para pintarem, ficaram pendurados a partir de uma altura de 120 metros e a extensão é de 180 metros! Um pouco mais a frente está a Cueva do Índio, uma caverna por onde passa um rio e dele passamos de barco até sairmos no outro lado. Com tudo incluído, este passeio custou 49 dólares, com refeição. Se você aceitar a dica, não se esqueça de levar sempre moedas para colocar como um "regalo" para as enroladoras de charutos (veja abaixo), pois elas esperam isso dos turistas.

Em todo hotel cubano há uma agência de turismo e você deve fazer a reserva logo na chegada, pois as excursões são concorridas e a volta pela Cubana é exatamente na sexta-feira pela manhã.

Diz-se que o melhor da ilha é a "gente cubana" e disso eu não posso discordar. Come-se lá feijão preto e arroz (que coisa mais brasileira !), há uma simpatia e uma descontração, que às vezes pensamos que não saímos do Brasil, e pode-se até "ver de novo" uma novela brasileira na televisão (agora estava passando Rei do Gado), e por que não dizer, uma dose até certo ponto exata de um jeito brasileiro de ser ("mañana!"), ou seja, "vamos deixar para amanhã" se a tarefa for muito desagradável.

Cuba é um terror para as peruas ou para o modelito "Dolores Consumista" do Arrigo Barnabé. Os turistas são pequenos cofres de dólares para a economia cubana, engessada pelo bloqueio econômico norte-americano e pelo fim do auxílio da ex-União Soviética. E isso repercute não só para o povo cubano, mas para os turistas, que atingiram o número de dois milhões no ano de 1999 e espera-se um pouco mais em 2000. Eles podem ter o que comprar (desde que tenham dólares), mas vão pagar um preço muito mais alto do que paga o cubano, e obviamente, do que pagariam no Brasil. Lojas com vitrines e anúncios são raras e há pequenos shoppings para turistas e com produtos bem selecionados. Exceção há no Bairro Chino, área em que há venda de produtos feitos por cubanos. Esqueça o Carrefour e comece a viver com o essencial que você deverá ter levado do Brasil: sabonetes, pasta de dentes, creme hidratante, desodorante, pomadinhas e remedinhos. Você encontrará isso nas lojinhas para turista, mas num preço que vai lhe dar vontade de virar um hippie radical. Uma camiseta com a foto do Guevara sairá por 12 a 16 dólares e cada minuto de ligação telefônica com o Brasil custa 5 dólares com cartão telefônico.  

Mas há prazeres melhores, inesquecíveis e mais baratos: andar num Pontiac da década de 40 ou num Chevrolet da década de 50, bem conservados, mas como motores de outros carros, por três dólares, saindo do bairro de Vedado e parando em Havana Vieja, ou mesmo num táxi-côco. Este é uma moto com uma "carroceria" de fibra de vidro em forma de capacete onde cabem duas pessoas, além do motoqueiro e é um charme. (Também há o bici-táxi, com dois lugares para os "passageiros")

Ou tomar uma Tu-Cola ( a cola cubana) nos jardins do Hotel Nacional (enxutíssimo !) vendo o mar no final da tarde (1 dólar como em todos os lugares para os turistas), ou melhor, a deliciosíssima cerveja Cristal em lata, com os pavões passeando ao seu redor. Dá até a impressão de que o Hemmingway vai baixar e dizer um "olá".

Tenha em mente que você só vai ter contato com a área que fica ligada ao turismo e por isso evite a tentação de sair dando aulas sobre Cuba a partir das impressões que você teve num curto período de seis dias.

Mas algumas informações podem lhe ajudar:

  • O turista terá dificuldade para trocar dólares por pesos, pois isso é ilegal. Além do mais, depois de 1993, o cubano pode ter dólares para compras e ele não vai quer pesos de você.

  • Uma nota de cem dólares é muito difícil de ser trocada e quando isso acontece anota-se o número do seu passaporte, pois há um controle de quantos dólares entram na Ilha. Tente trocá-la no hotel e ao descer no aeroporto José Martí, tenha 1 dólar para o aluguel do carrinho se sua mala é tão grande assim.

  • Tente esquecer que existe picanha ou alcatra. Com a interrupção da chegada da ração soviética, o governo cubano tomou a decisão de manter basicamente os bois que servem como instrumento de trabalho. Os pastos estão reservados para as vacas que garantem a manutenção do programa de fornecimento de 1 litro de leita para cada criança cubana por dia até completar 1 ano de idade. O bife vai ser uma facada no seu bolso e somente encontrado nos restaurantes dos grandes hotéis (15 dólares ou mais). Chegue cedo aos restaurantes pois há mais opção de menu.

  • Procure se informar onde há um refeitório de casa de família (limite de 12 refeições por dia) onde se come bem e barato: arroz, feijão, frango ou carne de porco e uma salada por 5 dólares, mas tem que ser com um dia de antecedência. Isso é permitido e pode-se desfrutar de um papo no cafezinho com uma família cubana.

  • Não vai dar para você andar de ônibus, a não ser que você consiga de algum modo ter pesos cubanos, mas uma viagem de "camelo" (uma espécie de papa-filas) poderia ser inesquecível. Há também ônibus iguais aos nossos.

  • Os cubanos vivem numa situação econômica de crise e por isso é impensável o desperdício. Por isso, as ruas são limpas e não há aquela enxurrada de papel e de sacos plásticos pelas calçadas, além de funcionar um programa muito eficiente de reciclagem de materiais implantado em Havana. Um sabonete pelo meio para eles é um sabonete e não um resto de sabonete. Lembre-se disso ao fazer as malas de volta para o Brasil e venha com ela mais leve do que quando chegou, principalmente quanto a remédios e artigos de higiene pessoal. Um presente sempre é bem vindo em qualquer lugar.

  • Há três "moedas" em Cuba : o dólar dos EUA, o peso cubano e um peso equivalente ao dólar dos EUA para facilitar o troco entre os turistas e cubanos. Este último vale a pena guardar o de 3 pesos, que tem a cara do Guevara, mas não há câmbio fora de Cuba, o mesmo acontecendo para o peso cubano "de verdade".

  • Em função do bloqueio econômico dos EUA, verifique se o seu cartão de crédito é VISA é válido antes de sair do Brasil. O meu foi aceito (BANESTADO), mas o do BB do meu marido não, pela operadora de turismo, pois era uma espécie de repasse de cartão de uma firma norte-americana. Não entendi direito, mas tenho certeza que o American Express não é valido por lá. O guia de Cuba do Berlitz informa que o Asistur (Paseo del Prado 254, esquina com Ánimas e Trocadero no bairro de Habana Vieja, telefone: 07 338527) faz esta troca, mas cobra 10% de comissão, mas prefira evitar problemas pra ficar com mais tempo pra ferver em Cuba.

  • Como no Brasil, leve sempre na bolsa um pouco de papel higiênico, pois em banheiros fora do circuito turístico ele pode não estar presente (bares, por exemplo). Para os homens, naquele calorão, vai bem no estojo da mala um tubo da pomada Hipoglós. Lá os rapazes decobrirão o porquê da dica.

  • A água de Havana tem bastante carbonato e os cabelos ficarão meio espetados, e não vão ser domados tão facilmente sem a ajuda de um creme.

  • Os postais cubanos são lindo e merecem a coleção. Muitos já estão pré-postados.Há até alguns em alto-relêvo com o mapa da Ilha. Ótimos para professores de Geografia.

  • Reserve 15 dólares para trazer um cd de salsa, este agitado e alegre ritmo cubano, de preferência do Van Van, sobre quem fui informada de que é um concorrente do prêmio Grammy deste ano.

  • Cada pessoa só pode trazer duas garrafas de rum, então aproveite para tomar boas doses por lá. Até no hotel 3 estrelas os drinks são de boa qualidade. Quem fuma Hollywood não terá problemas quanto à marca, mas talvez ao preço (1,87 dólares) e os charutos são para quem curte o hábito. O Romeu e Julieta em embalagem individual sai por 4 dólares nas fábricas. A caixa do charuto sai por 45 dólares. Há também o maço de cigarros Romeu e Julieta por um dólar, mas o fumo é o de charuto, muito forte, mas é uma boa lembrancinha. Che Guevara, além de ser um herói da Revolução cubana parece ser o melhor garto propaganda dos "puros" charutos cubanos.

  • Arrume tempo para visitar uma "santeria" (culto dos orixás), pois este é mais um ponto de coincidências com a cultura brasileira, nem que seja na Casa da África no Bairro de Habana Vieja.Leve pelo menos dois filmes fotográficos só para serem usados no registro dos modelos de carros antigos.

  • Não deixe de visitar a livraria Nueva Poesia, no Bairro de Habana Vieja, na Calle Obispo. Os livros são bem baratos e bem variados. Há também um sebo enorme a céu aberto com muitas barracas na praça ao lado do forte, perto da praça da Catedral com ótimas pechinchas. Pertinho daí, na beira mar, há uma feira de artesanato onde as cerâmicas de bonecas cubanas com charutinhos na boca são bem sugestivas para um recuerdo.

  • Com um pouco de sorte você encontrará estudantes brasileiros por lá e isso pode ser muito mais interessante caso eles não estejam de férias e voltando para passear no Brasil (as férias são em agosto e as aulas recomeçam em setembro).

  • Não fique envergonhada em trazer perfumes cubanos, o Coral Negro ou o Magnólia, pois não fazem vergonha nenhuma aos nossos, pelo contrário. Eles, assim como o rum, podem ser comprados dentro do avião na viagem de volta.

  • No avião, na ida, peça para experimentar o vinho tinto cubano - uma delícia - e esta surpresa será muito agradável, tanto que vale a pena ser repetida na volta.

  • Converse, converse e converse com os cubanos. Eles parecem cariocas no gosto pela conversa e adoram trocar idéias, pois a partir daí se tem uma breve imagem destes hermanos tão simpáticos. Acho que é a coisa mais importante que se deve fazer em Cuba, é claro que ao som de uma salsa e acompanhado de um rum com 7 anos de envelhecimento, sentindo o vento fresco do final da tarde no rosto... e até, quem sabe, escutar a última piada sobre o Fidel.

Marcia Siqueira de Carvalho
Londrina / PR

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